O espeto - João Simões Lopes Neto
Extraído de : “Casos de Romualdo”
Foi no tempo da guerra do Paraguai. Eu era cadete; o meu regimento
seguia, pela campanha, recebendo a incorporação de piquetes de recrutas
mandados de vários lugares: já se vê, portanto, que muita gente presenciou o
acontecido. E que muitos já morreram, outros extraviaram-se, e se não, eu
apresentaria testemunhas, isto se alguém me duvidasse, o que não espero:
felizmente sou tido e havido por homem de palavra!
Fazia um frio de rachar pedras.
Acendeu-se uma grande fogueira e cada um tratou de chamuscar o seu
pedaço de carne. Eu saí a procurar um
espeto para o meu assadinho. A noite era muito escura, mas graças ao clarão da
fogueira descobri uma pequena reboleira de mato, ali perto. Aproximei-me e
quando ia cortar um galho qualquer, caiu-me ao chão a faca, abaixei-me para
apanhá-la dentre as ervas, e com tal sorte, que ao lado dela encontrei um
pedaço de pau tal e qual como eu queria:
duma meia braça, grossinho, liso, e o que mais é, já com a ponta
feita. Por certo que seria um espeto já
pronto que algum dos camaradas perdera; melhor para mim! E ainda bati com ele no chão para limpá-lo
duns capins secos, e terra que estava pegada.
Voltando, atravessei o meu churrasco no meu espeto achado, e finquei-o
na beirada do fogo.
Vinha clareando o dia. Por toda
parte branqueava a geada, alta de dois dedos, geada farinhenta,. que é a mais
fria de todas. Estava eu um pouco arriado, conversando, quando um cabo, baiano,
que viera acender o cigarro numa brasa, gritou, olhando para o chão, admirado:
-
Olha o assado com o espeto, cadete Romualdo, que vai-se embora!...
Julguei que era algum gaiato que pretendia furtar-me o churrasco; mas o
baiano repetiu:
-
Acuda, seu cadete, que o assado vai de trote!...
Corri, e que vi?...
O
churrasco, sim senhor, borrifado de salmoura, já chiando na gordura, que ia
andando pelo chão.., dava a idéia de um cágado sem pernas, mas de cabeça é
cauda mui compridas! ...
Acudiram então outros rapazes, muitos, quase todos: e todos viram o churrasco arrastando-se, fugindo da fogueira.
Então rompeu o sol. Foi quando se pode verificar a cousa: o espeto era
uma cobra! Como estava dura, dura de
frio, aguentara todo o trabalho de atravessar o churrasco e ser cravada ao lado
do fogo; depois o calor começou a assar a carne e a aquecer o espeto, isto é, a
cobra, que se foi reanimando, revivendo. E logo que ela sentiu-se quentinha e
de saúde, tratou de escapar. Com o
alarido e o movimento a cobra assustou-se, fez força e desfincou-se do
churrasco, escondendo-se logo num buraco ali adiante.
Este caso foi muito falado
naquele tempo.
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| João Simões Lopes Neto - escritor gaúcho |











