Casa dos Senhores Formigais – José Saramago Extraido de “Pequenas Memórias”
(Atualizado em 06/2026)
Nota do bloguista
: esta pequena memória data do final dos anos 20. Descreve o rigorosíssimo respeito,
quase idolatria, que os empregados tinham por seus patrões. Saramago conta
como, criança ainda, foi paparicado pela família dos Formigais, patrões de sua
tia.
Em casa dos
Senhores Formigais (quando se falava deles empregava-se sempre o plural) é que
estava a servir como criada de dentro a minha tia Maria Natália (havia também a
criada de fora, que era a que saía à rua para fazer compras ou por outros
deveres no exterior). Lembro-me de estar uma manhã (teria ido recolher a tia
para o passeio dominical, semana sim, semana não?) na cozinha da casa (porque
nunca tinha visto nada igual fascinavam-me o fogão negro, as portinholas de
diferentes tamanhos com as suas molduras de reluzente cobre, a caldeira onde
sempre havia água quente) e aparecer ali o velho Senhor Formigal, acompanhado
pela esposa, a Dona Albertina, igualmente avançada nos anos, mas muito bem
parecida. A cozinheira e as duas criadas, a de dentro e a de fora, fizeram a
vénia e alinharam-se a um lado, à espera de ordens, mas o Senhor Formigal, que
usava pêra e bigode, branquíssimos como o cabelo, viera só para observar (por
gentileza, não que ele fosse médico ou enfermeiro) o joelho que eu havia
escalavrado na Avenida Casal Ribeiro.
Olhou--me com ar condescendente, protector, e perguntou: "Então, feriste a
rótula?" Nunca mais me esqueci da frase. O que eu tinha realmente ferido
não era a rótula, mas o joelho, porém, ele devia ter pensado que esta palavra
era demasiado vulgar, indigna da sua pessoa. Baixei os olhos para o maltratado
engonço, e só fui capaz de dizer: "Sim senhor." Fez-me uma festa na
cara e foi-se embora, levando atrás de si a Dona Albertina. A tia Maria Natália
impava de orgulho, a cozinheira e a criada de fora olhavam-me como se uma auréola
celestial rodeasse a minha cabeça, como se no insignificante sobrinho da criada
de dentro tivessem desabrochado de repente méritos e valores até aí
desconhecidos, mas que a cuidada e branca mão do Senhor Formigal, ao roçar-me
de leve a face e o cabelo cortado curto, obrigara finalmente a florescer.
Os Senhores Formigais iam sair, provavelmente para a missa, mas a Dona
Albertina ainda voltou à cozinha. Trazia um cartuchinho de pastilhas de
chocolate: "Toma, são para ti, que te façam bem ao joelho", disse, e
foi-se embora, deixando um rasto de cheiro a pó-de-arroz e a rótula no seu
lugar. Não sei se foi desta vez que a minha tia me levou a ver o quarto dos
senhores, o que não. Era pomposo, solene, quase eclesiástico, todo adornado de
panejamentos vermelhos, o dossel do leito, a colcha, os almofadões, os
cortinados, as tapeçarias das cadeiras: "É tudo damasco do melhor, do mais
rico", informou a tia, e quando eu lhe perguntei por que tinha aquele sofá
aos pés da cama a forma de um S, respondeu: "Aquilo é uma conversadeira, o
senhor senta-se num lado, a senhora senta-se no outro, e assim podem conversar
sem terem de virar a cabeça para se olharem, é muito prático." Estando nós
ali, teria gostado de experimentar, mas a tia Maria Natália nem sequer me
deixou passar do limiar da porta. Pior sorte tivemos depois, eu e as pastilhas
de chocolate. Antes de sair da casa dos Senhores Formigais mastiguei umas
poucas que me deixaram na boca um sabor antecipado de paraíso, porém a tia
Maria Natália foi clara e terminante: "Não comas mais, que te podem fazer
mal", e eu, bom menino como sempre, obedeci. Como não tenho lembrança de
andar a passear pelo Parque Eduardo VII com um cartucho de pastilhas de
chocolate na mão e ainda por cima proibido de lhes meter o dente, devemos ter
ido directamente dali para a Rua Ferrão Lopes, onde a minha tia me deixou
depois de ter narrado, posso imaginar com que luxo de pormenores, o episódio da
cozinha, os mimos feitos ao sobrinho, o afago do Senhor Formigal, e estas
pastilhas de chocolate deu-lhas a senhora, que boa é a senhora. A noite chegou,
e, como nesse tempo, sem rádio para ouvir as cantigas das revistas, ainda nos
deitávamos com as galinhas, não tardou muito que minha mãe me mandasse para a
cama. Meus pais e eu dormíamos no mesmo quarto, eles na sua cama de casal, eu
num pequeno divã, a bem dizer um catre, por baixo da parte esconsa da
água-furtada. No outro lado, em cima de uma cadeira encostada à parede, tinha
ficado o desejado cartucho com as pastilhas de chocolate. Quando minha mãe e
meu pai se vieram deitar, primeiro ele, como sucedia sempre, depois ela, que
ainda ficava a lavar a louça ou a passajar alguma peúga, eu tinha os olhos
fechados, fingindo que dormia. Apagou-se a luz, adormeceram eles, mas eu
consegui não render-me ao sono. Noite dentro, no quarto às escuras, levantei-me
devagarinho, pé ante pé fui buscar o cartucho e, em três passos furtivos,
voltei para a cama e entre os lençóis me enfiei, feliz, a mastigar as
dulcíssimas pastilhas, até que deslizei para a inconsciência. Quando abri os
olhos, de manhã, encontrei, esborrachado debaixo de mim, o que restava do ágape
nocturno, uma pasta castanha de chocolate, pegajosa e mole, a coisa mais suja e
repugnante que os meus olhos alguma vez tinham visto. Chorei muito, de
desgosto, mas também de vergonha e frustração, e foi talvez por isso que os meus
pais não me castigaram nem repreenderam. Em verdade, para infelicidade já tinha
a minha conta. Havia cedido à tentação da gula e a gula me castigava sem pau
nem pedra.
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