O dinheiro ou o testamento do cachorro-Leandro Gomes Barros
O dinheiro neste mundo
Não há
força que o debande
Nem
perigo que o enfrente
Nem
senhoria que o mande.
Tudo
está debaixo dele,
Só ele é
quem é o grande!
Ele
impera sobre um trono
Cercado
por ambição
O
chaleirismo a seus pés
Sempre
está de prontidão
Perguntando-lhe
com cuidado:
— O que
lhe falta, patrão?
No
dinheiro tem se visto
Nobreza
desconhecida,
Meios
que ganham questão
Ainda
estando perdida,
Honra
por meio da infâmia,
Glória
mal adquirida.
Porque
só mesmo o dinheiro
Tem
maior utilidade
É o
farol que mais brilha
Perante
a sociedade
O código
dali é ele
A lei é
sua vontade
O homem
tendo dinheiro
Mata até
o próprio pai
A
justiça fecha os olhos
A
polícia lá não vai
Passam-se
cinco ou seis meses
Vai
indo, o processo cai
Compra
cinco testemunhas
Que
depõe a seu favor
Aluga
dois escrivães
E compra
o procurador
Faz dois
doutores de prata
Pronto o
homem, meu senhor!
Ainda
que vá a júri
Compra
logo atenuante
Dá um
unto nos jurados
Se livra
no mesmo instante
Tem o
juiz a favor
Jurados
e assim por diante.
Essas
questões muito sérias
Que vão
para o tribunal
Qli se
exigem papéis
Que
levem prova legal
Cédulas
de 500 fachos
É o
papel principal.
Dinheiro
dá eloquência
A quem
nunca teve estudo
Imprime
coragam ao fraco
Dá
animação a tudo
Vence
batalhas sem arma
Faz vez
de lança e escudo
Aonde
não há dinheiro
Todo
trabalho é perdido
Toda
questão esmoesse
Todo
negócio é falido
Todo
cálculo sai errado
Todo
debate é vencido
Pois o
homem sem dinheiro
É como
um velho demente
Um gato
que não tem unha
Cobra
que não tem um dente
Cachorrro
que não tem faro
Cavalo
magro e doente
Perante
o dinheiro
Tudo ali
se torna mole
Porque
não há objeto
Que sob
seus pés não role
Bote
dinheiro no morto
Que a
ossada dele bole !
O
bacharel por dinheiro
Só
macaco por banana
O gato
por gabiru
Ou um
guaxinim por cana
Só
saguim pela resina
O bote
por jitirana
A moça
tendo dinheiro
Sendo
feia como a morte
Caracteriza-se
e enfeita-se
Sempre
melhora de sorte
Mais de
mil aventureiros
A
desejam por consorte
Porque
dinheiro na terra
É capa
que tudo encobre
Cubra o
cachorro com ouro
Que ele
tem que ficar nobre
É
superior ao dono
Se acaso
o dono for pobre.
Eu já vi
narrar um fato
Que
fiquei admirado
Um
sertanejo me disse
Que
nesse século passado
Viu enterrar um cachorro
Com
honras de potentado
Um
inglês tinha um cachorro
De uma
grande estimação
Morreu o
dito cachorro
E o
inglês disse então
- Mim
enterra essa cachorra
Inda que
gaste um milhão !
Foi ao
vigário e disse:
- Morreu
cachorra de mim
E urubu
do Brasil
Não
poderá dar-lhe fim
- O
cachorro tem dinheiro?
Pergunto
vigário assim.
- Mim
quer enterrar cachorra!
Disse o
vigário: - Ó inglês,
Você pensa que isto aqui
É o país
de vocês?
Disse o
inglês: - a cachorra
Gasta
tudo desta vez.
- Ela
antes de morrer
Um
testamento aprontou
Só
quatro contos de réis
Para o
vigário deixou!
Antes do
inglês findar
O
vigário suspirou:
-
Coitado! Disse o vigário
De que
morreu este pobre?
Que
animal inteligente
Que
sentimento tão nobre
Antes de
partir do mundo
Fez-me
presente do cobre!
- Leve-o
para o cemitério
Que o
vou encomendar
Isto é,
traga o dinheiro
Antes
dele se enterrar!
Estes
sufrágios fiados
É
factível não salvar.
E lá
chegou o cachorro
O
dinheiro foi na frente
Teve
momento o enterro
Missa de
corpo presente
Ladainha
e seu rancho
Melhor
do que certa gente.
Mandaram
dar parte ao bispo
Que o
vigário tinha feito
O
enterro do cachorro
Que não
era de direito
O bispo
aí falou muito
Mostrou-se
mal satisfeito
Mandou
chamar o vigário
Pronto,
o vigário chegou:
- Ás
ordens, sua excelência!
O bispo
lhe perguntou:
- Então
que cachorro foi
Que seu
vigário enterrou?
- Foi um
cachorro importante
Animal
de inteligência
Ele
antes de morrer
Deixou a
Vossa Excelencia
Dois
contos de réis em ouro
Se
errei, tenha paciência!
- Não
foi erro. Seu vigário
Voce é
um bom pastor
Desculpe
eu incomodá-lo
A culpa
é do portador
Um
cachorro como este
Já vê
que é merecedor!
- O meu
informante disse
Que o
caso se tinha dado
E eu
julguei que isso fosse
Um
cachorro desgraçado
Ele
lembrou-se de mim
Não o
faço desprezado!
O
vigário entregou-lhe
Os dois
contículos de réis
O bispo
disse: - É melhor
Do que
diversos fiéis
E
disse:- Proverá Deus
Que
assim lá morressem uns dez!
- E se
não fosse o dinheiro?
A
questão ficava feia
Desenterrava
o cachorro
O
vigário ia prá cadeia
Mas como
o cobre correu
Ficou
qual letras na areia!
Judas
era homem santo
Pregava
religião
Era
discípulo de Cristo
Tinha
toda direção
Porem
por trinta dinheiros
Dispensou
a salvação!
O
dinheiro só não pode
Privar
do dono morrer
Parar o
vento no ar
E
proibir de chover
O resto
se torna fácil
Para o
dinheiro fazer
O
sacerdote no templo
Inda
estando no sermão
Chega um
ateu na igreja
Traga-lhe
meio milhão
Que ele
vai encontra-lo
Bota-o
na palma da mão.
Havendo
mundo dinheiro
Casa-se
irmã com irmão
O bispo
dispensa um quarto
Vai ao
papa outro quinhão
O
vigário dá-lhe o unto
E por
que não casam então?!
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