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sábado, 29 de agosto de 2026

Chegada de Lampião no Ceu - Guaipuan Vieira

 Chegada de Lampião no Ceu - Guaipuan Vieira, 1977

Maria-bonita-lampiao-xilogravura


Foi numa Semana Santa
Tava o céu em oração
São Pedro estava na porta
Refazendo anotação
Daqueles santos faltosos
Quando chegou Lampião.

 

Pedro pulou da cadeira
Do susto que recebeu
Puxou as cordas do sino
Bem forte nele bateu
Uma legião de santos
Ao seu lado apareceu.

 

São Jorge chegou na frente
Com sua lança afiada
Lampião baixou os óculos
Vendo aquilo deu risada
Pedro disse: Jorge expulse
Ele da Santa Morada..

E tocou Jorge a corneta
Chamando sua guarnição
Numa corrente de força
Cada santo em oração
Pra que o santo Pai Celeste
Não ouvisse a confusão.

O pelotão apressado
Ligeiro marcou presença
Pedro disse a Lampião:
Eu lhe peço com licença
Saia já da porta santa
Ou haverá desavença.

Lampião lhe respondeu:
Mas que santo é o senhor?
Não aprendeu com Jesus
Excluir ódio e rancor?...
Trago paz nesta missão
Não precisa ter temor.

Disse Pedro isso é blasfêmia
É bastante astucioso
Pistoleiro e cangaceiro
Esse povo é impiedoso
Não ganharão o perdão
Do santo Pai Poderoso

Inda mais tem sua má fama
Vez por outra comentada
Quando há um julgamento
Duma alma tão penada
Porque fora violenta
Em sua vida é baseada.

- Sei que sou um pecador
O meu erro reconheço
Mas eu vivo injustiçado.
Um julgamento eu mereço
Pra sanar as injustiças
Que só me causam tropeço.

Mas isso não faz sentido
Falou São Pedro irritado
Por uma tribuna livre
Você aqui foi julgado
E o nosso Onipotente
Deu seu caso encerrado.

- Como fazem julgamento
Sem o réu estar presente?
Sem ouvir sua defesa?
Isso é muito deprimente
Você Pedro está mentindo
Disso nunca esteve ausente.

Sobre o batente da porta
Pedro bateu seu cajado
De raiva deu um suspiro
E falou muito exaltado:
Te excomungo Virgulino
Cangaceiro endiabrado!

Houve um grande rebuliço
Naquele exato momento
São Jorge e seus guerreiros
Cada qual mais violento
Gritaram pega o jagunço!
Ele aqui não tem talento!

Lampião vendo o afronto
Naquela santa morada
Disse: Deus não está sabendo
Do que há na santarada
Bateu mão no velho rifle
Deu pra cima uma rajada.

O pipocado de bala
Vomitado pelo cano
Clareou toda a fachada
Do reino do Soberano
A guarnição assombrada

Fez Pedro mudar de plano.

Em um quarto bem acústico
Nosso Senhor repousava
O silêncio era profundo
Que nada estranho notava
Sem dúvida o Pai Celeste

Um cansaço demonstrava.

Pedro já desesperado
Ligeiro chamou São João
Lhe disse sobressaltado:
Vá chamar Cícero Romão
Pra acalmar seu afilhado
Que só causa confusão!

Resmungando bem baixinho
Pra raiva poder conter
Falou para Santo Antônio:
Não posso compreender
Este padre não é santo
O que aqui veio fazer?!

Disse Antônio: fale baixo
De José é convidado
Ele aqui ganhou adeptos
Por ser um padre adorado
No Nordeste brasileiro
Onde é “santificado”.

Padre Cícero experiente
Recolheu-se ao aposento
Fingindo não saber nada
Um plano traçava atento
Pra salvar seu afilhado
Daquele acontecimento.

Logo João bateu na porta
Lhe transmitindo o recado
Cícero disse: vá na frente
Fique despreocupado
Diga a Pedro que se acalme
Isso já será sanado.

Alguns minutos o padre
Com uma Bíblia na mão
Ao ver Pedro lhe indagou:
O que há para aflição?
Quem lá fora tenta entrar
É também um ser cristão,

São Pedro disse: absurdo
O que terminou de falar!
Mas Cícero foi taxativo:
Vim a confusão sanar!
Só escute o réu primeiro
Antes de você julgar!

Não precisa ele entrar
Nesta sagrada mansão
O receba na guarita
Onde fica a guarnição
Com certeza há muitos anos
Nos busca aproximação.

Vou abrir esta exceção
Falou Pedro insatisfeito
O nosso reino sagrado
Merece muito respeito
Virou-se para São Paulo:
Vá buscar este sujeito.

Lampião tirou o chapéu
Descalço também ficou
Avistando o seu padrinho
Aos seus pés se ajoelhou
O encontro foi marcante
De emoção Pedro chorou

Ao ver Pedro transformado
Levantou-se e foi dizendo:
Sou um homem injustiçado
E por isso estou sofrendo
Circula em torno de mim
Só mesmo o lado ruim
Como herói não estão me vendo.

Sou o Capitão Virgulino
Guerrilheiro do sertão
Defendi o nordestino
Da mais terrível aflição
Por culpa duma polícia
Que promovia malícia
Extorquindo o cidadão.

Por um cruel fazendeiro
Foi meu pai assassinado
Tomaram dele o dinheiro
De duro serviço honrado
Ao vingar a sua morte
O destino em má sorte
Da “lei” me fez um soldado.

Mas o que devo a visita
Pedro fez indagação
Lampião sem bater vista:
Vê padim Ciço Romão
Pra antes do ano novo
Mandar chuva pro meu povo
Você só manda trovão

Pedro disse: é malcriado
Nem o diabo lhe aceitou
Saia já seu excomungado
Sua hora já esgotou
Volte lá pro seu Nordeste
Que só o cabra da peste
Com você se acostumou.

FIM

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A chegada de Lampião no céu



domingo, 16 de agosto de 2026

O dinheiro ou o testamento do cachorro-Leandro Gomes Barros

 O dinheiro ou o testamento do cachorro-Leandro Gomes Barros

O dinheiro neste mundo
Não há força que o debande
Nem perigo que o enfrente
Nem senhoria que o mande.
Tudo está debaixo dele,
Só ele é quem é o grande!

Ele impera sobre um trono

Cercado por ambição

O chaleirismo a seus pés

Sempre está de prontidão

Perguntando-lhe com cuidado:

— O que lhe falta, patrão?

 

No dinheiro tem se visto

Nobreza desconhecida,

Meios que ganham questão

Ainda estando perdida,

Honra por meio da infâmia,

Glória mal adquirida.

 

Porque só mesmo o dinheiro

Tem maior utilidade

É o farol que mais brilha

Perante a sociedade

O código dali é ele

A lei é sua vontade

 

O homem tendo dinheiro

Mata até o próprio pai

A justiça fecha os olhos

A polícia lá não vai

Passam-se cinco ou seis meses

Vai indo, o processo cai

 

Compra cinco testemunhas

Que depõe a seu favor

Aluga dois escrivães

E compra o procurador

Faz dois doutores de prata

Pronto o homem, meu senhor!

 

Ainda que vá a júri

Compra logo atenuante

Dá um unto nos jurados

Se livra no mesmo instante

Tem o juiz a favor

Jurados e assim por diante.

 

Essas questões muito sérias

Que vão para o tribunal

Qli se exigem papéis

Que levem prova legal

Cédulas de 500 fachos

É o papel principal.

 

Dinheiro dá eloquência

A quem nunca teve estudo

Imprime coragam ao fraco

Dá animação a tudo

Vence batalhas sem arma

Faz vez de lança e escudo

 

Aonde não há dinheiro

Todo trabalho é perdido

Toda questão esmoesse

Todo negócio é falido

Todo cálculo sai errado

Todo debate é vencido

 

Pois o homem sem dinheiro

É como um velho demente

Um gato que não tem unha

Cobra que não tem um dente

Cachorrro que não tem faro

Cavalo magro e doente

 

Perante o dinheiro

Tudo ali se torna mole

Porque não há objeto

Que sob seus pés não role

Bote dinheiro no morto

Que a ossada dele bole !

 

O bacharel por dinheiro

Só macaco por banana

O gato por gabiru

Ou um guaxinim por cana

Só saguim pela resina

O bote por jitirana

 

A moça tendo dinheiro

Sendo feia como a morte

Caracteriza-se e enfeita-se

Sempre melhora de sorte

Mais de mil aventureiros

A desejam por consorte

 

Porque dinheiro na terra

É capa que tudo encobre

Cubra o cachorro com ouro

Que ele tem que ficar nobre

É superior ao dono

Se acaso o dono for pobre.

 

Eu já vi narrar um fato

Que fiquei admirado

Um sertanejo me disse

Que nesse século passado

Viu enterrar um cachorro

Com honras de potentado

 

Um inglês tinha um cachorro

De uma grande estimação

Morreu o dito cachorro

E o inglês disse então

- Mim enterra essa cachorra

Inda que gaste um milhão !

 

Foi ao vigário e disse:

- Morreu cachorra de mim

E urubu do Brasil

Não poderá dar-lhe fim

- O cachorro tem dinheiro?

Pergunto vigário assim.

 

- Mim quer enterrar cachorra!

Disse o vigário: - Ó inglês,

Você pensa que isto aqui

É o país de vocês?

Disse o inglês: - a cachorra

Gasta tudo desta vez.

 

- Ela antes de morrer

Um testamento aprontou

Só quatro contos de réis

Para o vigário deixou!

Antes do inglês findar

O vigário suspirou:

 

- Coitado! Disse o vigário

De que morreu este pobre?

Que animal inteligente

Que sentimento tão nobre

Antes de partir do mundo

Fez-me presente do cobre!

 

- Leve-o para o cemitério

Que o vou encomendar

Isto é, traga o dinheiro

Antes dele se enterrar!

Estes sufrágios fiados

É factível não salvar.

 

E lá chegou o cachorro

O dinheiro foi na frente

Teve momento o enterro

Missa de corpo presente

Ladainha e seu rancho

Melhor do que certa gente.

 

Mandaram dar parte ao bispo

Que o vigário tinha feito

O enterro do cachorro

Que não era de direito

O bispo aí falou muito

Mostrou-se mal satisfeito

 

Mandou chamar o vigário

Pronto, o vigário chegou:

- Ás ordens, sua excelência!

O bispo lhe perguntou:

- Então que cachorro foi

Que seu vigário enterrou?

 

- Foi um cachorro importante

Animal de inteligência

Ele antes de morrer

Deixou a Vossa Excelencia

Dois contos de réis em ouro

Se errei, tenha paciência!

 

- Não foi erro. Seu vigário

Voce é um bom pastor

Desculpe eu incomodá-lo

A culpa é do portador

Um cachorro como este

Já vê que é merecedor!

 

- O meu informante disse

Que o caso se tinha dado

E eu julguei que isso fosse

Um cachorro desgraçado

Ele lembrou-se de mim

Não o faço desprezado!

 

O vigário entregou-lhe

Os dois contículos de réis

O bispo disse: - É melhor

Do que diversos fiéis

E disse:- Proverá Deus

Que assim lá morressem uns dez!

 

- E se não fosse o dinheiro?

A questão ficava feia

Desenterrava o cachorro

O vigário ia prá cadeia

Mas como o cobre correu

Ficou qual letras na areia!

 

Judas era homem santo

Pregava religião

Era discípulo de Cristo

Tinha toda direção

Porem por trinta dinheiros

Dispensou a salvação!

 

O dinheiro só não pode

Privar do dono morrer

Parar o vento no ar

E proibir de chover

O resto se torna fácil

Para o dinheiro fazer

 

O sacerdote no templo

Inda estando no sermão

Chega um ateu na igreja

Traga-lhe meio milhão

Que ele vai encontra-lo

Bota-o na palma da mão.

 

Havendo mundo dinheiro

Casa-se irmã com irmão

O bispo dispensa um quarto

Vai ao papa outro quinhão

O vigário dá-lhe o unto

E por que não casam então?!

 

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Cordel o dinheiro - o testamento do cachorro

Leandro Gomes Barros


segunda-feira, 16 de março de 2020

Casa dos Senhores Formigais - José Saramago





Casa dos Senhores Formigais – José Saramago Extraido de “Pequenas Memórias”


(Atualizado em 06/2026)
Nota do bloguista : esta pequena memória data do final dos anos 20. Descreve o rigorosíssimo respeito, quase idolatria, que os empregados tinham por seus patrões. Saramago conta como, criança ainda, foi paparicado pela família dos Formigais, patrões de sua tia. 

Em casa dos Senhores Formigais (quando se falava deles empregava-se sempre o plural) é que estava a servir como criada de dentro a minha tia Maria Natália (havia também a criada de fora, que era a que saía à rua para fazer compras ou por outros deveres no exterior). Lembro-me de estar uma manhã (teria ido recolher a tia para o passeio dominical, semana sim, semana não?) na cozinha da casa (porque nunca tinha visto nada igual fascinavam-me o fogão negro, as portinholas de diferentes tamanhos com as suas molduras de reluzente cobre, a caldeira onde sempre havia água quente) e aparecer ali o velho Senhor Formigal, acompanhado pela esposa, a Dona Albertina, igualmente avançada nos anos, mas muito bem parecida. A cozinheira e as duas criadas, a de dentro e a de fora, fizeram a vénia e alinharam-se a um lado, à espera de ordens, mas o Senhor Formigal, que usava pêra e bigode, branquíssimos como o cabelo, viera só para observar (por gentileza, não que ele fosse médico ou enfermeiro) o joelho que eu havia escalavrado na Avenida Casal Ribeiro.

Olhou--me com ar condescendente, protector, e perguntou: "Então, feriste a rótula?" Nunca mais me esqueci da frase. O que eu tinha realmente ferido não era a rótula, mas o joelho, porém, ele devia ter pensado que esta palavra era demasiado vulgar, indigna da sua pessoa. Baixei os olhos para o maltratado engonço, e só fui capaz de dizer: "Sim senhor." Fez-me uma festa na cara e foi-se embora, levando atrás de si a Dona Albertina. A tia Maria Natália impava de orgulho, a cozinheira e a criada de fora olhavam-me como se uma auréola celestial rodeasse a minha cabeça, como se no insignificante sobrinho da criada de dentro tivessem desabrochado de repente méritos e valores até aí desconhecidos, mas que a cuidada e branca mão do Senhor Formigal, ao roçar-me de leve a face e o cabelo cortado curto, obrigara finalmente a florescer.

Os Senhores Formigais iam sair, provavelmente para a missa, mas a Dona Albertina ainda voltou à cozinha. Trazia um cartuchinho de pastilhas de chocolate: "Toma, são para ti, que te façam bem ao joelho", disse, e foi-se embora, deixando um rasto de cheiro a pó-de-arroz e a rótula no seu lugar. Não sei se foi desta vez que a minha tia me levou a ver o quarto dos senhores, o que não. Era pomposo, solene, quase eclesiástico, todo adornado de panejamentos vermelhos, o dossel do leito, a colcha, os almofadões, os cortinados, as tapeçarias das cadeiras: "É tudo damasco do melhor, do mais rico", informou a tia, e quando eu lhe perguntei por que tinha aquele sofá aos pés da cama a forma de um S, respondeu: "Aquilo é uma conversadeira, o senhor senta-se num lado, a senhora senta-se no outro, e assim podem conversar sem terem de virar a cabeça para se olharem, é muito prático." Estando nós ali, teria gostado de experimentar, mas a tia Maria Natália nem sequer me deixou passar do limiar da porta. Pior sorte tivemos depois, eu e as pastilhas de chocolate. Antes de sair da casa dos Senhores Formigais mastiguei umas poucas que me deixaram na boca um sabor antecipado de paraíso, porém a tia Maria Natália foi clara e terminante: "Não comas mais, que te podem fazer mal", e eu, bom menino como sempre, obedeci. Como não tenho lembrança de andar a passear pelo Parque Eduardo VII com um cartucho de pastilhas de chocolate na mão e ainda por cima proibido de lhes meter o dente, devemos ter ido directamente dali para a Rua Ferrão Lopes, onde a minha tia me deixou depois de ter narrado, posso imaginar com que luxo de pormenores, o episódio da cozinha, os mimos feitos ao sobrinho, o afago do Senhor Formigal, e estas pastilhas de chocolate deu-lhas a senhora, que boa é a senhora. 

A noite chegou, e, como nesse tempo, sem rádio para ouvir as cantigas das revistas, ainda nos deitávamos com as galinhas, não tardou muito que minha mãe me mandasse para a cama. Meus pais e eu dormíamos no mesmo quarto, eles na sua cama de casal, eu num pequeno divã, a bem dizer um catre, por baixo da parte esconsa da água-furtada. No outro lado, em cima de uma cadeira encostada à parede, tinha ficado o desejado cartucho com as pastilhas de chocolate. Quando minha mãe e meu pai se vieram deitar, primeiro ele, como sucedia sempre, depois ela, que ainda ficava a lavar a louça ou a passajar alguma peúga, eu tinha os olhos fechados, fingindo que dormia. Apagou-se a luz, adormeceram eles, mas eu consegui não render-me ao sono.

 Noite dentro, no quarto às escuras, levantei-me devagarinho, pé ante pé fui buscar o cartucho e, em três passos furtivos, voltei para a cama e entre os lençóis me enfiei, feliz, a mastigar as dulcíssimas pastilhas, até que deslizei para a inconsciência. Quando abri os olhos, de manhã, encontrei, esborrachado debaixo de mim, o que restava do ágape nocturno, uma pasta castanha de chocolate, pegajosa e mole, a coisa mais suja e repugnante que os meus olhos alguma vez tinham visto. Chorei muito, de desgosto, mas também de vergonha e frustração, e foi talvez por isso que os meus pais não me castigaram nem repreenderam. Em verdade, para infelicidade já tinha a minha conta. Havia cedido à tentação da gula e a gula me castigava sem pau nem pedra.
José Saramago