A moagem - Julio Ribeiro - extraído de "A Carne"
N.R. - a narrativa descreve o dia de moagem de cana de açucar em um engenho, cuja moenda (cilindros que moem a cana) é movida por uma roda d´agua. A garapa é recolhida em um grande tacho, onde se faz o melaço.
Chegara o dia de principiar a moagem.
Já de véspera tinham os negros andado em uma faina a varrer a
casa no engenho, a lavar os cochos e as bicas, a arear, a polir as caldeiras e
o alambique, com grandes gastos de limão e cinza (1).
Mal amanhecera entrou-se a ver no canavial fronteiro uma fita estreita de emurchecimento que aumentava, que avançava gradualmente no sentido da largura. Era o corte que começara.
As roupas brancas de algodão, as saias azuis das pretas, as camisas de baeta vermelha dos pretos punham notas vivas, picantes, naquele oceano de verdura clara, agitadas por lufadas de vento quente.
No casarão do engenho, varrido, asseado, quatro caldeiras e o alambique
de cobre vermelho reverberavam polidos, refletindo a luz que entrava pelas
largas frestas. As fornalhas afundavam-se lôbregas, escancarando as grandes
bocas gulosas.
A água, ainda presa na calha, espirrava pelas juntas da
comporta sobre as línguas da roda, filetes cristalinos.
As moendas brilhavam limpas, e os eixos e endentações luziam
negros de graxa. Compridos cochos e vasta resfriadeira abriam os bojos amplos,
absorvendo a luz no pardo fosco da madeira muito lavada.
Ao longe, quase indistinto a princípio, mas progressivamente
acentuado, fez-se ouvir um chiar agudo, contínuo, monótono, irritante. A
crioulada reunida em frente ao engenho levantou uma gritaria infrene,
tripudiando de júbilo.
Eram os primeiros carros de cana que chegavam.
Arrastados pesadamente por morosos mas robustos bois de
grandes aspas, avançavam os ronceiros veículos estalando, gemendo, sob a carga
enorme de grossas e compridas canas, riscadas de verde e roxo.
Carreiros negros, altos, espadaúdos, cingidos na altura dos
fins por um tirador de couro cru, estimulavam, dirigiam os ruminantes com
longas aguilhadas, com brados ostentóricos:
- Eia, Lavarinto! Fasta, Ramalhete! Ruma, Barroso!
Os carros entraram no compartimento das moendas.
Negros ágeis saltaram para cima deles, a descarregar. Em um
momento empilharam-se as canas, de pé, atadas em feixe com as próprias folhas.
Fez-se fogo na fornalha das caldeiras, abriu-se a comporta da
calha, a água despenhou-se em queda violenta sobre as línguas da roda, esta
começou de mover-se, lenta a princípio, depois acelerada.
Cortando os atilhos de um feixe a golpes rápidos de facão, o
negro moedor entregou as primeiras canas ao revolver dos cilindros. Ouviu-se um
estalejar de fibras esmagadas, o bagaço vomitado picou de branco o desvão
escuro em que giravam as moendas, a garapa principiou a correr pela bica em
jorro fano, verdejante. Após pequeno trajeto foi cair no cocho grande, marulhosa,
gorgolejante, com grande espumarada resistente.
Os negros banqueiros, empunhando espumadeiras de compridos
cabos, tomaram lugar junto às caldeiras.
Levada por uma bica volante, a garapa encheu-os em um átimo.
A fornalha esbraseou-se, escandeceu, irradiando um calor doce por toda a vasta
quadra. As espumadeiras destras atiravam ao ar em louras espadanas o melaço
fumegante, que tornava a cair nas caldeiras, refervendo, aos gorgorões.
Dominava no ambiente aroma suave, sacarino, cortando espaços por uma lufada tépida de cheiro humano áspero, de catinga sufocante exalada dos negros em suor.
(1(1) Antigamente usava-se limão e cinza
para limpeza de superfícies metálicas. A cinza era usada como uma espécie de
sapólio.
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| Engenho em dia de moagem |
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| Julio Ribeiro |


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