quarta-feira, 29 de julho de 2026

O Espeto - João Simões Lopes Neto

 

O espeto - João Simões Lopes Neto


Extraído de : “Casos de Romualdo”

 

N.R. nos tempos antigos, sem tv nem internet, as pessoas se distraiam conversando. Haviam os contadores de casos (ou "causos"). Os causos eram sempre fantásticos, mentirosos e hilários, acabavam sempre em risadas. Envolviam cobras gigantes, assombrações, encontro com onças, pesca de peixes grandes, sacis. 

Chico Anysio criou um personagem contador de causos: Panteleão, que após contar o causo pedia confirmação da mulher: "É mentira Terta?" 


Foi no tempo da guerra do Paraguai. Eu era cadete; o meu regimento seguia, pela campanha, recebendo a incorporação de piquetes de recrutas mandados de vários lugares: já se vê, portanto, que muita gente presenciou o acontecido. E que muitos já morreram, outros extraviaram-se, e se não, eu apresentaria testemunhas, isto se alguém me duvidasse, o que não espero: felizmente sou tido e havido por homem de palavra!


Vínhamos em marcha forçada; alta madrugada o regimento fez alto. Trazíamos umas novilhas gordas, que foram logo abatidas para um rancho apressado, de churrasco.

Fazia um frio de rachar pedras.

Acendeu-se uma grande fogueira e cada um tratou de chamuscar o seu pedaço de carne.  Eu saí a procurar um espeto para o meu assadinho. A noite era muito escura, mas graças ao clarão da fogueira descobri uma pequena reboleira de mato, ali perto. Aproximei-me e quando ia cortar um galho qualquer, caiu-me ao chão a faca, abaixei-me para apanhá-la dentre as ervas, e com tal sorte, que ao lado dela encontrei um pedaço de pau tal e qual como eu queria:  duma meia braça, grossinho, liso, e o que mais é, já com a ponta feita.  Por certo que seria um espeto já pronto que algum dos camaradas perdera; melhor para mim!  E ainda bati com ele no chão para limpá-lo duns capins secos, e terra que estava pegada.


Voltando, atravessei o meu churrasco no meu espeto achado, e finquei-o na beirada do fogo.


Vinha clareando o dia.  Por toda parte branqueava a geada, alta de dois dedos, geada farinhenta,. que é a mais fria de todas. Estava eu um pouco arriado, conversando, quando um cabo, baiano, que viera acender o cigarro numa brasa, gritou, olhando para o chão, admirado:


   - Olha o assado com o espeto, cadete Romualdo, que vai-se embora!...


Julguei que era algum gaiato que pretendia furtar-me o churrasco; mas o baiano repetiu:

   - Acuda, seu cadete, que o assado vai de trote!...

   Corri, e que vi?...


O churrasco, sim senhor, borrifado de salmoura, já chiando na gordura, que ia andando pelo chão.., dava a idéia de um cágado sem pernas, mas de cabeça é cauda mui compridas! ...


Acudiram então outros rapazes, muitos, quase todos: e todos viram o churrasco arrastando-se, fugindo da fogueira.


Então rompeu o sol. Foi quando se pode verificar a cousa: o espeto era uma cobra!  Como estava dura, dura de frio, aguentara todo o trabalho de atravessar o churrasco e ser cravada ao lado do fogo; depois o calor começou a assar a carne e a aquecer o espeto, isto é, a cobra, que se foi reanimando, revivendo. E logo que ela sentiu-se quentinha e de saúde, tratou de escapar.  Com o alarido e o movimento a cobra assustou-se, fez força e desfincou-se do churrasco, escondendo-se logo num buraco ali adiante.

Este caso foi muito falado naquele tempo.

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João Simões Lopes Neto - escritor gaúcho


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