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domingo, 30 de agosto de 2026

A desventura de um corno ganancioso

 A desventura de um corno ganancioso - Osvaldo T. Figueira

Literatura de cordel

 

Eu nunca quis ser um  corno

sempre tive cerimonia

mesmo tendo em meu poder

uma mulher de vergonha

e neste assunto de galha

a pobrezinha nem sonha

 

Alguem diz que ser corno

É coisa bem preferida

uma profissão rendosa

e muito mais divertida

pois é esse o único  cargo

que serve pra toda vida

 

Um corno desses bem corno

quer dizer não  acanha

disse a mim que no Brasil

nem mesmo na Alemanha

tem artista pra ganhar o dinheiro

que um corno ganha

 

E por falar neste assunto

vou descrever direitinho

a vida de um grande corno

que morava em Canhotinho

o qual chegou a ser

corno ainda muito novinho

 

Tinha ele quinze anos

quando casou com Analha

mulher pintosa e bonita

porem bastante canalha

essa com um mes de casada

botou-lhe a primeira galha

 

Com isso ele ficou brabo

passou a mão sobre o velho

prá cá sua mulher

ela calma igual um coelho

disse querido se acalme

voce precisa de conselho

 

Quero mostrar-lhe a razão

queira você ou não queira

Feliz do homem que se casa

com uma mulher gaieira

tem sempre um auxiliar

e uma ajuda prá feira

 

Pois o homem que é corno

querendo anda alinhado

calça, veste, come bem

tem sempre amigo a seu lado

e sempre tem posição

se está mais complicado

 

Você é pobre demais

profissão não tem nenhuma

não tem casa, não tem móveis

nem roupa, nem coisa alguma

e sendo você um corno

tudo isso tem de ruma

 

Ele muito admirado

perguntou quanto rendia

a mulher disse conforme

depende da freguesia

garanto duzentas pratas

por fraco seja o dia

 

Disse ele sendo assim

minha ordem eu vou lhe dar

a mulher disse está certo

e pode se preparar

que amanhã logo cedo

eu começo a vadiar

 

Estava tudo acertado

e quando o dia amanheceu

saiu a mulher prá rua

e com o amante seu

arranjou logo duzentos

da vadiada que deu

 

À noite chega a mulher

e disse eu ganhei duzentos

ele disse é muito pouco

deveria ser trezentos

uma vadiada sua

vale mais do que quinhentos

 

Eu digo isso não é

por eu ser ganancioso

mas o homem que é cliente

desse teu corpo mimoso

e dar menos do que isso

eu acho ser horroroso

 

Ainda te digo outra

acredite se quiser

quem chumbregar com você

e menos do que isso der

é porque é franciscano

e não gosta de mulher

 

O povo sabe o valor

mas parece que assusta

quer ver você prá saber

o teu corpo quanto custa

se arrume e saia fora

com esta sua saia justa

 

Vista ela, saia tora     (espécie de mini-saia)

dando pinta a todo mundo

rico, pobre, preto ou branco

cego , aleijado , ou corcundo

dê pinta até a cachorro

aos que não for muito imundo

 

Saiu a mulher e fez

como o marido mandou

chumbregando dessa forma

uma semana passou

depois voltou para casa

com a grana que ganhou

 

Ao chegar muito contente

beijou o marido seu

esse muito acanalhado

um beijo também lhe deu

e disse nega abre a bolsa

e me diz quanto rendeu?

 

Ela disse: corno velho

o passeio foi bacana

um conto e oitocentos

Foi a renda da semana

inclusive as passagens

que paguei prá Itabaiana

 

Diz ele ganhou pouquinho

que dinheiro você traz

se eu fosse uma mulher

fazendo o que você faz

eu só saía na rua

pra ganhar dois a mais

 

Ela disse:  eu trago é mais

pode ficar conformado

vou, só venho com um mês

com dinheiro ovulado

embora sua cabeça

fique como a dum viado .

 

Ele disse: tem nada isso

são coisas da vida

vá e venha com dinheiro

para remir nossa vida

isso aqui em Canhotinho

já é coisa conhecida

 

Está certo disse a mulher

e saiu muito ligeiro

apanhou um automóvel

com destino a Cachoeira

e esse chegando lá

Foi a sua derradeira.

Ela antes de morrer

um bilhetinho narrou então

por um desconhecido

para o marido mandou

e este lendo a escrita

logo ciente ficou

 

Se acaso achares pouco

vai debaixo do colchão

tira uma de dois metros

e cumpre tua missão

rua cima, rua abaixo

sem ela na tua mão

 

Dizia assim a missiva

marido não entristeça

eu morri e para que você

de mim não esqueça

zele bem essas três galhas

que tem na sua cabeça

 

Um lugar de gente brabo

e ela na inocência

conseguiu ir para lá

mas caiu as inclemência

não mais voltou para casa

pois perdera existência

 

Depois de ter saldo

ele andando um pouco banzeiro

dizendo valha meu Deus

fiquei sem meu miaeiro

a morte prá mim agora

é plano mais certeiro

 

Onde ele ia passando

era grande o burburinho

uns falavam, outros gritavam

outros diziam Toinho

olha prá aquele avião

como vai ali baixinho

 

Ele com esse zumzum

ficou tão desconfiado

que pulou de um lagedo

prá morrer esbagaçado

porém por causa das galhas

morreu no galho enganchado

 

Termino aqui meu livrinho

Sem agravar a ninguém

Esse caso foi passado

E eu contar fiz bem

Só lhe custa 50 centavos

Quantia que todos tem


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A desventura de um corno ganancioso


terça-feira, 28 de julho de 2026

Moagem -Julio Ribeiro-A Carne

 A moagem - Julio Ribeiro - extraído de "A Carne"

N.R. - a narrativa descreve o dia de moagem de cana de açucar em um engenho, cuja moenda (cilindros que moem a cana) é movida por uma roda d´agua. A garapa é recolhida em um grande tacho, onde se faz o melaço. 

Chegara o dia de principiar a moagem.

Já de véspera tinham os negros andado em uma faina a varrer a casa no engenho, a lavar os cochos e as bicas, a arear, a polir as caldeiras e o alambique, com grandes gastos de limão e cinza (1).

Mal amanhecera entrou-se a ver no canavial fronteiro uma fita estreita de emurchecimento que aumentava, que avançava gradualmente no sentido da largura. Era o corte que começara. 

As roupas brancas de algodão, as saias azuis das pretas, as camisas de baeta vermelha dos pretos punham notas vivas, picantes, naquele oceano de verdura clara, agitadas por lufadas de vento quente. 

No casarão do engenho, varrido, asseado, quatro caldeiras e o alambique de cobre vermelho reverberavam polidos, refletindo a luz que entrava pelas largas frestas. As fornalhas afundavam-se lôbregas, escancarando as grandes bocas gulosas.

A água, ainda presa na calha, espirrava pelas juntas da comporta sobre as línguas da roda, filetes cristalinos.

As moendas brilhavam limpas, e os eixos e endentações luziam negros de graxa. Compridos cochos e vasta resfriadeira abriam os bojos amplos, absorvendo a luz no pardo fosco da madeira muito lavada.

Ao longe, quase indistinto a princípio, mas progressivamente acentuado, fez-se ouvir um chiar agudo, contínuo, monótono, irritante. A crioulada reunida em frente ao engenho levantou uma gritaria infrene, tripudiando de júbilo.

Eram os primeiros carros de cana que chegavam.

Arrastados pesadamente por morosos mas robustos bois de grandes aspas, avançavam os ronceiros veículos estalando, gemendo, sob a carga enorme de grossas e compridas canas, riscadas de verde e roxo.

Carreiros negros, altos, espadaúdos, cingidos na altura dos fins por um tirador de couro cru, estimulavam, dirigiam os ruminantes com longas aguilhadas, com brados ostentóricos:

- Eia, Lavarinto! Fasta, Ramalhete! Ruma, Barroso!

Os carros entraram no compartimento das moendas.

Negros ágeis saltaram para cima deles, a descarregar. Em um momento empilharam-se as canas, de pé, atadas em feixe com as próprias folhas.

Fez-se fogo na fornalha das caldeiras, abriu-se a comporta da calha, a água despenhou-se em queda violenta sobre as línguas da roda, esta começou de mover-se, lenta a princípio, depois acelerada.

Cortando os atilhos de um feixe a golpes rápidos de facão, o negro moedor entregou as primeiras canas ao revolver dos cilindros. Ouviu-se um estalejar de fibras esmagadas, o bagaço vomitado picou de branco o desvão escuro em que giravam as moendas, a garapa principiou a correr pela bica em jorro fano, verdejante. Após pequeno trajeto foi cair no cocho grande, marulhosa, gorgolejante, com grande espumarada resistente.

Os negros banqueiros, empunhando espumadeiras de compridos cabos, tomaram lugar junto às caldeiras.

Levada por uma bica volante, a garapa encheu-os em um átimo. A fornalha esbraseou-se, escandeceu, irradiando um calor doce por toda a vasta quadra. As espumadeiras destras atiravam ao ar em louras espadanas o melaço fumegante, que tornava a cair nas caldeiras, refervendo, aos gorgorões.

Dominava no ambiente aroma suave, sacarino, cortando espaços por uma lufada tépida de cheiro humano áspero, de catinga sufocante exalada dos negros em suor.

(1(1)  Antigamente  usava-se limão e cinza para limpeza de superfícies metálicas. A cinza era usada como uma espécie de sapólio.


Engenho em dia de moagem


Julio Ribeiro

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domingo, 15 de novembro de 2015

Lygia Fagundes Telles - O moço do saxofone

O moço do saxofone - Lygia Fagundes Telles

(De “Antes do Baile Verde”, 1970)


Lygia Fagundes Telles
Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca (1). Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavoucando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone.

Não que não gostasse de música, sempre gostei de ouvir tudo quanto é charanga no meu rádio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado. Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava.

— O que é isso? — eu perguntei ao tipo das giletes. Era o meu primeiro dia de pensão e ainda não sabia de nada. Apontei para o teto que parecia de papelão, tão forte chegava a música até nossa mesa. Quem é que está tocando?

— É o moço do saxofone.
    Mastiguei mais devagar. Já tinha ouvido antes saxofone, mas aquele da pensão eu não podia mesmo reconhecer nem aqui nem na China.

— E o quarto dele fica aqui em cima?

    James meteu uma batata inteira na boca. Sacudiu a cabeça e abriu mais a boca que fumegava como um vulcão com a batata quente lá no fundo. Soprou um bocado de tempo a fumaça antes de responder.

— Aqui em cima.

    Bom camarada esse James. Trabalhava numa feira de diversões, mas como já estivesse ficando velho, queria ver se firmava num negócio de bilhetes. Esperei que ele desse cabo da batata, enquanto ia enchendo meu garfo.

— É uma música desgraçada de triste — fui dizendo.

— A mulher engana ele até com o periquito — respondeu James, passando o miolo de pão no fundo do prato para aproveitar o molho. — O pobre fica o dia inteiro trancado, ensaiando. Não desce nem para comer. Enquanto isso, a cabra se deita com tudo quanto é cristão que aparece.

— Deitou com você?

— É meio magricela para o meu gosto, mas é bonita. E novinha. Então entrei com meu jogo, compreende? Mas já vi que não dou sorte com mulher, torcem logo o nariz quando ficam sabendo que engulo gilete, acho que ficam com medo de se cortar…

    Tive vontade de rir também, mas justo nesse instante o saxofone começou a tocar de um jeito abafado, sem fôlego como uma boca querendo gritar, mas com uma mão tapando, os sons espremidos saindo por entre os dedos. Então me lembrei da moça que recolhi uma noite no meu caminhão. Saiu para ter o filho na vila, mas não aguentou e caiu ali mesmo na estrada, rolando feito bicho. Arrumei ela na carroceria e corri como um louco para chegar o quanto antes, apavorado com a idéia do filho nascer no caminho e desandar a uivar que nem a mãe. No fim, para não me aporrinhar mais, ela abafava os gritos na lona, mas juro que seria melhor que abrisse a boca no mundo, aquela coisa de sufocar os gritos já estava me endoidando. Pomba, não desejo ao inimigo aquele quarto de hora.

— Parece gente pedindo socorro — eu disse, enchendo meu copo de cerveja. — Será que ele não tem uma música mais alegre?

James encolheu o ombro.

— Chifre dói.

    Nesse primeiro dia fiquei sabendo ainda que o moço do saxofone tocava num bar, voltava só de madrugada. Dormia em quarto separado da mulher.

—- Mas por quê? — perguntei, bebendo mais depressa para acabar logo e me mandar dali. A verdade é que não tinha nada com isso, nunca fui de me meter na vida de ninguém, mas era melhor ouvir o tro-ló-ló do James do que o saxofone.

— Uma mulher como ela tem que ter seu quarto — explicou James, tirando um palito do paliteiro. — E depois, vai ver que ela reclama do saxofone.

— E os outros não reclamam?

— A gente já se acostumou.

    Perguntei onde era o reservado e levantei-me antes que James começasse a escarafunchar os dentões que lhe restavam. Quando subi a escada de caracol, dei com um anão que vinha descendo. Um anão, pensei. Assim que saí do reservado dei com ele no corredor, mas agora estava com uma roupa diferente. Mudou de roupa, pensei meio espantado, porque tinha sido rápido demais. E já descia a escada quando ele passou de novo na minha frente, mas já com outra roupa. Fiquei meio tonto. Mas que raio de anão é esse que muda de roupa de dois em dois minutos? Entendi depois, não era um só, mas uma trempe deles, milhares de anões louros e de cabelo repartidinho do lado.

— Pode me dizer de onde vem tanto anão? — perguntei à madame, e ela riu.

— Todos artistas, minha pensão é quase só de artistas…

    Fiquei vendo com que cuidado o copeiro começou a empilhar almofadas nas cadeiras para que eles se sentassem. Comida ruim, anão e saxofone. Anão me enche e já tinha resolvido pagar e sumir quando ela apareceu. Veio por detrás, palavra que havia espaço para passar um batalhão, mas ela deu um jeito de esbarrar em mim.

— Licença?

    Não precisei perguntar para saber que aquela era a mulher do moço do saxofone. Nessa altura o saxofone já tinha parado. Fiquei olhando. Era magra, sim, mas tinha as ancas redondas e um andar muito bem bolado. O vestido vermelho não podia ser mais curto. Abancou-se sozinha numa mesa e de olhos baixos começou a descascar o pão com a ponta da unha vermelha. De repente riu e apareceu uma covinha no queixo. Pomba, que tive vontade de ir lá, agarrar ela pelo queixo e saber por que estava rindo. Fiquei rindo junto.

— A que horas é a janta? — perguntei para a madame, enquanto pagava.

— Vai das sete às nove. Meus pensionistas fixos costumam comer às oito — avisou ela, dobrando o dinheiro e olhando com um olhar acostumado para a dona de vermelho. — O senhor gostou da comida?

    Voltei às oito em ponto. O tal James já mastigava seu bife. Na sala havia ainda um velhote de barbicha, que era professor parece que de mágica e o anão de roupa xadrez. Mas ela não tinha chegado. Animei-me um pouco quando veio um prato de pastéis, tenho loucura por pastéis. James começou a falar então de uma briga no parque de diversões, mas eu estava de olho na porta. Vi quando ela entrou conversando baixinho com um cara de bigode ruivo. Subiram a escada como dois gatos pisando macio. Não demorou nada e o raio do saxofone desandou a tocar.

— Sim senhor — eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.

— O pior é que eu estava de porre, mal pude me defender!

    Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa. Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio.

— Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele não vem comer nunca?

James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.

— Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente — resmungou ele, tirando um palito. — Fico com pena, mas às vezes me dá raiva, corno besta. Um outro já tinha acabado com a vida dela!

    Agora a música alcançava um agudo tão agudo que me doeu o ouvido. De novo pensei na moça ganindo de dor na carroceria, pedindo ajuda não sei mais para quem.

— Não topo isso, pomba.

— Isso o quê?

    Cruzei o talher. A música no máximo, os dois no máximo trancados no quarto e eu ali vendo o calhorda do James palitar os dentes. Tive ganas de atirar no teto o prato de goiabada com queijo e me mandar para longe de toda aquela chateação.

— O café é fresco? — perguntei ao mulatinho que já limpava o oleado da mesa com um pano encardido como a cara dele.

— Feito agora.

    Pela cara vi que era mentira.

— Não é preciso, tomo na esquina.

    A música parou. Paguei, guardei o troco e olhei reto para a porta, porque tive o pressentimento que ela ia aparecer. E apareceu mesmo com o aninho(2) de gata de telhado, o cabelo solto nas costas e o vestidinho amarelo mais curto ainda do que o vermelho. O tipo de bigode passou em seguida, abotoando o paletó. Cumprimentou a madame, fez ar de quem tinha muito o que fazer e foi para a rua.

— Sim senhor!

— Sim senhor o quê? — perguntou James.

— Quando ela entra no quarto com um tipo, ele começa a tocar, mas assim que ela aparece, ele pára. Já reparou? Basta ela se enfurnar e ele já começa.
    James pediu outra cerveja. Olhou para o teto.

— Mulher é o diabo…

    Levantei-me e quando passei junto da mesa dela, atrasei o passo. Então ela deixou cair o guardanapo. Quando me abaixei, agradeceu, de olhos baixos.

— Ora, não precisava se incomodar…

    Risquei o fósforo para acender-lhe o cigarro. Senti forte seu perfume.

— Amanhã? — perguntei, oferecendo-lhe os fósforos. — Às sete, está bem?


— É a porta que fica do lado da escada, à direita de quem sobe.

Saí em seguida, fingindo não ver a carinha safada de um dos anões que estava ali por perto e zarpei no meu caminhão antes que a madame viesse me perguntar se eu estava gostando da comida. No dia seguinte cheguei às sete em ponto, chovia potes e eu tinha que viajar a noite inteira. O mulatinho já amontoava nas cadeiras as almofadas para os anões. Subi a escada sem fazer barulho, me preparando para explicar que ia ao reservado, se por acaso aparecesse alguém. Mas ninguém apareceu. Na primeira porta, aquela à direita da escada, bati de leve e fui entrando. Não sei quanto tempo fiquei parado no meio do quarto: ali estava um moço segurando um saxofone. Estava sentado numa cadeira, em mangas de camisa, me olhando sem dizer uma palavra. Não parecia nem espantado nem nada, só me olhava.
   
— Desculpe, me enganei de quarto — eu disse, com uma voz que até hoje não sei onde fui buscar.
    O moço apertou o saxofone contra o peito cavado.
— É na porta adiante — disse ele baixinho, indicando com a cabeça.

    Procurei os cigarros só para fazer alguma coisa. Que situação, pomba. Se pudesse, agarrava aquela dona pelo cabelo, a estúpida. Ofereci-lhe cigarro.
— Está servido?

— Obrigado, não posso fumar.

    Fui recuando de costas. E de repente não agüentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.
— E você aceita tudo isso assim quieto? Não reage? Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio! Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?

— Eu toco saxofone.

    Fiquei olhando primeiro para a cara dele, que parecia feita de gesso de tão branca. Depois olhei para o saxofone. Ele corria os dedos compridos pelos botões, de baixo para cima, de cima para baixo, bem devagar, esperando que eu saísse para começar a tocar. Limpou com um lenço o bocal do instrumento, antes de começar com os malditos uivos.
    Bati a porta. Então a porta do lado se abriu bem de mansinho, cheguei a ver a mão dela segurando a maçaneta para que o vento não abrisse demais. Fiquei ainda um instante parado, sem saber mesmo o que fazer, juro que não tomei logo a decisão, ela esperando e eu parado feito besta, então, Cristo-Rei!? E então? Foi quando começou bem devagarinho a música do saxofone. Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Na rua, tropecei num dos anões metido num impermeável, desviei de outro, que já vinha vindo atrás e me enfurnei no caminhão. Escuridão e chuva. Quando dei a partida, o saxofone já subia num agudo que não chegava nunca ao fim. Minha vontade de fugir era tamanha que o caminhão saiu meio desembestado, num arranco. 

Vocabulario

1.        Frege-mosca – (pop.) restaurante ruim. Do verbo frigir (fritar).
2.        Aninho – bem estar, aconchego


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