domingo, 16 de agosto de 2026

O dinheiro ou o testamento do cachorro-Leandro Gomes Barros

 O dinheiro ou o testamento do cachorro-Leandro Gomes Barros

O dinheiro neste mundo
Não há força que o debande
Nem perigo que o enfrente
Nem senhoria que o mande.
Tudo está debaixo dele,
Só ele é quem é o grande!

Ele impera sobre um trono

Cercado por ambição

O chaleirismo a seus pés

Sempre está de prontidão

Perguntando-lhe com cuidado:

— O que lhe falta, patrão?

 

No dinheiro tem se visto

Nobreza desconhecida,

Meios que ganham questão

Ainda estando perdida,

Honra por meio da infâmia,

Glória mal adquirida.

 

Porque só mesmo o dinheiro

Tem maior utilidade

É o farol que mais brilha

Perante a sociedade

O código dali é ele

A lei é sua vontade

 

O homem tendo dinheiro

Mata até o próprio pai

A justiça fecha os olhos

A polícia lá não vai

Passam-se cinco ou seis meses

Vai indo, o processo cai

 

Compra cinco testemunhas

Que depõe a seu favor

Aluga dois escrivães

E compra o procurador

Faz dois doutores de prata

Pronto o homem, meu senhor!

 

Ainda que vá a júri

Compra logo atenuante

Dá um unto nos jurados

Se livra no mesmo instante

Tem o juiz a favor

Jurados e assim por diante.

 

Essas questões muito sérias

Que vão para o tribunal

Qli se exigem papéis

Que levem prova legal

Cédulas de 500 fachos

É o papel principal.

 

Dinheiro dá eloquência

A quem nunca teve estudo

Imprime coragam ao fraco

Dá animação a tudo

Vence batalhas sem arma

Faz vez de lança e escudo

 

Aonde não há dinheiro

Todo trabalho é perdido

Toda questão esmoesse

Todo negócio é falido

Todo cálculo sai errado

Todo debate é vencido

 

Pois o homem sem dinheiro

É como um velho demente

Um gato que não tem unha

Cobra que não tem um dente

Cachorrro que não tem faro

Cavalo magro e doente

 

Perante o dinheiro

Tudo ali se torna mole

Porque não há objeto

Que sob seus pés não role

Bote dinheiro no morto

Que a ossada dele bole !

 

O bacharel por dinheiro

Só macaco por banana

O gato por gabiru

Ou um guaxinim por cana

Só saguim pela resina

O bote por jitirana

 

A moça tendo dinheiro

Sendo feia como a morte

Caracteriza-se e enfeita-se

Sempre melhora de sorte

Mais de mil aventureiros

A desejam por consorte

 

Porque dinheiro na terra

É capa que tudo encobre

Cubra o cachorro com ouro

Que ele tem que ficar nobre

É superior ao dono

Se acaso o dono for pobre.

 

Eu já vi narrar um fato

Que fiquei admirado

Um sertanejo me disse

Que nesse século passado

Viu enterrar um cachorro

Com honras de potentado

 

Um inglês tinha um cachorro

De uma grande estimação

Morreu o dito cachorro

E o inglês disse então

- Mim enterra essa cachorra

Inda que gaste um milhão !

 

Foi ao vigário e disse:

- Morreu cachorra de mim

E urubu do Brasil

Não poderá dar-lhe fim

- O cachorro tem dinheiro?

Pergunto vigário assim.

 

- Mim quer enterrar cachorra!

Disse o vigário: - Ó inglês,

Você pensa que isto aqui

É o país de vocês?

Disse o inglês: - a cachorra

Gasta tudo desta vez.

 

- Ela antes de morrer

Um testamento aprontou

Só quatro contos de réis

Para o vigário deixou!

Antes do inglês findar

O vigário suspirou:

 

- Coitado! Disse o vigário

De que morreu este pobre?

Que animal inteligente

Que sentimento tão nobre

Antes de partir do mundo

Fez-me presente do cobre!

 

- Leve-o para o cemitério

Que o vou encomendar

Isto é, traga o dinheiro

Antes dele se enterrar!

Estes sufrágios fiados

É factível não salvar.

 

E lá chegou o cachorro

O dinheiro foi na frente

Teve momento o enterro

Missa de corpo presente

Ladainha e seu rancho

Melhor do que certa gente.

 

Mandaram dar parte ao bispo

Que o vigário tinha feito

O enterro do cachorro

Que não era de direito

O bispo aí falou muito

Mostrou-se mal satisfeito

 

Mandou chamar o vigário

Pronto, o vigário chegou:

- Ás ordens, sua excelência!

O bispo lhe perguntou:

- Então que cachorro foi

Que seu vigário enterrou?

 

- Foi um cachorro importante

Animal de inteligência

Ele antes de morrer

Deixou a Vossa Excelencia

Dois contos de réis em ouro

Se errei, tenha paciência!

 

- Não foi erro. Seu vigário

Voce é um bom pastor

Desculpe eu incomodá-lo

A culpa é do portador

Um cachorro como este

Já vê que é merecedor!

 

- O meu informante disse

Que o caso se tinha dado

E eu julguei que isso fosse

Um cachorro desgraçado

Ele lembrou-se de mim

Não o faço desprezado!

 

O vigário entregou-lhe

Os dois contículos de réis

O bispo disse: - É melhor

Do que diversos fiéis

E disse:- Proverá Deus

Que assim lá morressem uns dez!

 

- E se não fosse o dinheiro?

A questão ficava feia

Desenterrava o cachorro

O vigário ia prá cadeia

Mas como o cobre correu

Ficou qual letras na areia!

 

Judas era homem santo

Pregava religião

Era discípulo de Cristo

Tinha toda direção

Porem por trinta dinheiros

Dispensou a salvação!

 

O dinheiro só não pode

Privar do dono morrer

Parar o vento no ar

E proibir de chover

O resto se torna fácil

Para o dinheiro fazer

 

O sacerdote no templo

Inda estando no sermão

Chega um ateu na igreja

Traga-lhe meio milhão

Que ele vai encontra-lo

Bota-o na palma da mão.

 

Havendo mundo dinheiro

Casa-se irmã com irmão

O bispo dispensa um quarto

Vai ao papa outro quinhão

O vigário dá-lhe o unto

E por que não casam então?!

 

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Cordel o dinheiro - o testamento do cachorro

Leandro Gomes Barros


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