Chegada de Lampião no Ceu - Guaipuan Vieira, 1977
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Foi numa Semana Santa
Tava
o céu em oração
São
Pedro estava na porta
Refazendo
anotação
Daqueles
santos faltosos
Quando
chegou Lampião.
Pedro pulou da cadeira
Do
susto que recebeu
Puxou
as cordas do sino
Bem
forte nele bateu
Uma
legião de santos
Ao
seu lado apareceu.
São Jorge chegou na frente
Com
sua lança afiada
Lampião
baixou os óculos
Vendo
aquilo deu risada
Pedro
disse: Jorge expulse
Ele
da Santa Morada..
E tocou Jorge a corneta
Chamando
sua guarnição
Numa
corrente de força
Cada
santo em oração
Pra
que o santo Pai Celeste
Não
ouvisse a confusão.
O pelotão apressado
Ligeiro
marcou presença
Pedro
disse a Lampião:
Eu lhe peço com licença
Saia
já da porta santa
Ou
haverá desavença.
Lampião lhe respondeu:
Mas que santo é o senhor?
Não aprendeu com Jesus
Excluir
ódio e rancor?...
Trago paz nesta missão
Não
precisa ter temor.
Disse Pedro isso é blasfêmia
É
bastante astucioso
Pistoleiro
e cangaceiro
Esse
povo é impiedoso
Não
ganharão o perdão
Do
santo Pai Poderoso
Inda mais tem sua má fama
Vez
por outra comentada
Quando
há um julgamento
Duma
alma tão penada
Porque
fora violenta
Em
sua vida é baseada.
- Sei que sou um pecador
O
meu erro reconheço
Mas
eu vivo injustiçado.
Um
julgamento eu mereço
Pra
sanar as injustiças
Que
só me causam tropeço.
Mas isso não faz sentido
Falou
São Pedro irritado
Por
uma tribuna livre
Você
aqui foi julgado
E
o nosso Onipotente
Deu
seu caso encerrado.
- Como fazem julgamento
Sem
o réu estar presente?
Sem ouvir sua defesa?
Isso é muito deprimente
Você
Pedro está mentindo
Disso
nunca esteve ausente.
Sobre o batente da porta
Pedro
bateu seu cajado
De
raiva deu um suspiro
E
falou muito exaltado:
Te excomungo Virgulino
Cangaceiro
endiabrado!
Houve um grande rebuliço
Naquele
exato momento
São
Jorge e seus guerreiros
Cada
qual mais violento
Gritaram
pega o jagunço!
Ele
aqui não tem talento!
Lampião vendo o afronto
Naquela
santa morada
Disse:
Deus não está sabendo
Do
que há na santarada
Bateu
mão no velho rifle
Deu
pra cima uma rajada.
O pipocado de bala
Vomitado
pelo cano
Clareou
toda a fachada
Do
reino do Soberano
A
guarnição assombrada
Fez Pedro mudar de plano.
Em um quarto bem acústico
Nosso
Senhor repousava
O
silêncio era profundo
Que
nada estranho notava
Sem
dúvida o Pai Celeste
Um cansaço demonstrava.
Pedro já desesperado
Ligeiro
chamou São João
Lhe
disse sobressaltado:
Vá chamar Cícero Romão
Pra
acalmar seu afilhado
Que
só causa confusão!
Resmungando bem baixinho
Pra
raiva poder conter
Falou
para Santo Antônio:
Não posso compreender
Este
padre não é santo
O
que aqui veio fazer?!
Disse Antônio: fale baixo
De
José é convidado
Ele
aqui ganhou adeptos
Por
ser um padre adorado
No
Nordeste brasileiro
Onde
é “santificado”.
Padre Cícero experiente
Recolheu-se
ao aposento
Fingindo
não saber nada
Um
plano traçava atento
Pra
salvar seu afilhado
Daquele
acontecimento.
Logo João bateu na porta
Lhe
transmitindo o recado
Cícero
disse: vá na frente
Fique
despreocupado
Diga
a Pedro que se acalme
Isso
já será sanado.
Alguns minutos o padre
Com
uma Bíblia na mão
Ao
ver Pedro lhe indagou:
O que há para aflição?
Quem lá fora tenta entrar
É
também um ser cristão,
São Pedro disse: absurdo
O
que terminou de falar!
Mas
Cícero foi taxativo:
Vim a confusão sanar!
Só
escute o réu primeiro
Antes
de você julgar!
Não precisa ele entrar
Nesta
sagrada mansão
O
receba na guarita
Onde
fica a guarnição
Com
certeza há muitos anos
Nos
busca aproximação.
Vou abrir esta exceção
Falou
Pedro insatisfeito
O
nosso reino sagrado
Merece
muito respeito
Virou-se
para São Paulo:
Vá buscar este sujeito.
Lampião tirou o chapéu
Descalço
também ficou
Avistando
o seu padrinho
Aos
seus pés se ajoelhou
O
encontro foi marcante
De
emoção Pedro chorou
Ao ver Pedro transformado
Levantou-se
e foi dizendo:
Sou um homem injustiçado
E
por isso estou sofrendo
Circula
em torno de mim
Só
mesmo o lado ruim
Como
herói não estão me vendo.
Sou o Capitão Virgulino
Guerrilheiro
do sertão
Defendi
o nordestino
Da
mais terrível aflição
Por
culpa duma polícia
Que
promovia malícia
Extorquindo
o cidadão.
Por um cruel fazendeiro
Foi
meu pai assassinado
Tomaram
dele o dinheiro
De
duro serviço honrado
Ao
vingar a sua morte
O
destino em má sorte
Da
“lei” me fez um soldado.
Mas o que devo a visita
Pedro
fez indagação
Lampião
sem bater vista:
Vê padim Ciço Romão
Pra
antes do ano novo
Mandar
chuva pro meu povo
Você
só manda trovão
Pedro disse: é malcriado
Nem
o diabo lhe aceitou
Saia
já seu excomungado
Sua
hora já esgotou
Volte
lá pro seu Nordeste
Que
só o cabra da peste
Com
você se acostumou.
FIM
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| A chegada de Lampião no céu |

