O gigante de pedra - Gonçalves Dias
N.R. : este poema é inspirado na cidade do Rio de Janeiro. Gonçalves Dias notou que de um determinado ponto da cidade, as montanhas do Rio se parecem com um gigante deitado. A Pedra da Gávea (na foto, a esquerda) é o rosto do gigante e os pés, à direita, é o Pão de Açucar.
| fonte : lucicardinelli.blogspot.com.br |
Num leito de pedra lá jaz a dormir!
Em duro granito repousa o gigante,
Que os raios somente puderam fundir.
Dormido atalaia no serro empinado
Devera cuidoso, sanhudo velar;
O raio passando o deixou fulminado,
E à aurora, que surge, não há de acordar!
Co'os braços no peito cruzados nervosos,
Mais alto que as nuvens, os céus a encarar,
Seu corpo se estende por montes fragosos,
Seus pés sobranceiros se elevam do mar!
De lavas ardentes seus membros fundidos
Avultam imensos: só Deus poderá
Rebelde lançá-lo dos montes erguidos,
Curvados ao peso, que sobre lhe 'stá.
E o céu, e as estrelas e os astros fulgentes
São velas, são tochas, são vivos brandões,
E o branco sudário são névoas algentes,
E o crepe, que o cobre, são negros bulcões.
Da noite, que surge, no manto fagueiro
Quis Deus que se erguesse, de junto a seus pés,
A cruz sempre viva do sol no cruzeiro,
Deitada nos braços do eterno Moisés.
Perfumam-no odores que as flores exalam,
Bafejam-no carmes* de um hino de amor
Dos homens, dos brutos, das nuvens que estalam,
Dos ventos que rugem, do mar em furor.
E lá na montanha, deitado dormido
Campeia o gigante, — nem pode acordar!
Cruzados os braços de ferro fundido,
A fronte nas nuvens, os pés sobre o mar!
* Carmes – poesias, poemas
| A Pedra da Gavea se parece com o perfil de um gigante. |
