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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A vendedora de bilhetes de loteria

A vendedora de bilhetes de loteria - Raul Machado Campelo

Extraido do livro "Cantos sem Gloria", 1953

Raul Campelo Machado da Silva

Aquela mulher, de olhos tristonhos,
Que vende sorte de loteria,
Fala em riquezas, promete sonhos,
Com o “prêmio grande” que tem na mão…

E assim, (contraste feito ironia!)
Numa indigência, que mal encobre,
Fala em riquezas quem é tão pobre!
Promete ouro quem não tem pão!

De rua em rua, na amarga luta,
Com o olhar sumido, que o pranto molha,
E a voz tão baixa, como uma prece…
Passa um banqueiro, que não a olha;
Passa um soldado, que não a escuta;
Passa um poeta, que ela entristece.

Se a chuva cai, não lhe importa a roupa,
Que até se lava com a chuva forte.
Só os bilhetes é que ela poupa!
Nem a doença lhe dá cuidados,
Pois a pobreza não teme a morte…

A noite chega. E ela, vencida
Do ingrato ofício na luta em vão,
Retorna a casa, desiludida,
Depois de haver, por um dia inteiro,
Vendido aos outros tanta ilusão!

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Funeral de um lavrador

Funeral de um lavrador - João Cabral de Mello Neto

N.R. este poema foi extraído do livro "Morte e vida Severina", de João Cabral de Mello Neto. Foi popularizada pelo cantor Chico Buarque de Holanda, que a musicou.

Esta cova em que estás com palmos medida
É a conta menor que tiraste em vida
É de bom tamanho nem largo nem fundo
É a parte que te cabe deste latifúndio

Não é cova grande, é cova medida
É a terra que querias ver dividida
É uma cova grande pra teu pouco defunto
Mas estarás mais ancho que estavas no mundo

É uma cova grande pra teu defunto parco
Porém mais que no mundo te sentirás largo
É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas a terra dada, não se abre a boca

É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo

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João Cabral de Melo Neto

Xilogravura digital by Claudio Dickson

Morte e vida Severina - João Cabral de Melo Neto

Morte e vida Severina - João Cabral de Melo Neto

O retirante explica ao leitor quem é e a que vai

Texto de Morte e Vida Severina
João Cabral de Melo Neto

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia,  (de pia batismal)
como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
Deram então de me chamar
Severino de Maria

como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mais isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem falo
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas
e iguais também porque o sangue,
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte
de fome um pouco por dia
de fraqueza e de doença
(é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
alguns roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

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