quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Infancia (Jorge Amado)

Jorge Amado - Infância

(Atualizado em 01/2026)

Pouco me recordo de meu pai. Ficamos muito crianças eu e minha irmã, eu com cinco anos, quando ele morreu. 

Lembro-me apenas que minha mãe soluçava, os cabelos caídos sobre o rosto pálido e que meu tio, vestido de preto, abraçava os presentes com uma cara hipócrita de tristeza. Chovia muito. E os homens que seguravam o caixão andavam depressa, sem atender aos soluços de mamãe, que não queria deixar que levassem o seu marido.

Papai, quando vinha da fábrica, me fazia sentar sobre os seus joelhos e me ensinava o ABC com a sua bela voz. Era delicado e incapaz, como diziam, de fazer mal a uma formiga. Brincava com mamãe como se ainda fossem namorados. Mamãe, muito alta e muito pálida, as mãos muito finas e muito longas, era de uma beleza esquisita, quase uma figura de romance. Nervosa, às vezes chorava sem motivo. Meu pai tomava-a então nos seus braços fortes e cantava trechos musicais que faziam com que ela sorrisse. Nunca ralhavam conosco.

Depois que ele morreu, mamãe passou um ano meio alucinada, jogada para um canto, sem ligar aos filhos, sem ligar às roupas, fumando e chorando. Tinha ataques por vezes horríveis. E enchia de gritos dolorosos as noites calmas do meu Sergipe.

Quando após esse ano ela voltou ao estado normal e quis acertar os negócios de papai, meu tio provou, com uma papelada imensa, que a fábrica era dele só, pois meu pai — afirmava com o rosto vermelho e as mãos levantadas num gesto de escândalo — meu pai, meio louco e meio artista, deixara unicamente dívidas que meu tio pagaria para não se desmoralizar o nome da família.

Mamãe silenciou, coitada, e nos apertou nos seus braços, pois nós tremíamos toda a vez que meu tio aparecia com a sua cara vermelha, a sua barriga cultivada, a sua roupa de brim e aqueles olhos pequenos e perversos.

Vivia passando as mãos pela barriga. O meu tio... Mais velho que meu pai dez anos, cedo se tocara para o Rio de Janeiro, onde levou muito tempo sem dar notícias e sem que se soubesse o que fazia. Quando os negócios de meu pai estavam prósperos, ele escreveu a queixar-se da vida, dizendo que queria voltar. E veio, logo após a carta. Papai deu-lhe sociedade na fábrica.

Veio com a esposa, tia Santa, santa de verdade, pobre mártir daquele homem estúpido.

Papai vivia inteiramente para nós e para o seu velho piano. Na fábrica conversava com os operários, ouvia as suas queixas, e sanava os seus males quanto possível. A verdade é que iam vivendo em boa harmonia ele e os operários, a fábrica em relativa prosperidade. 

Nunca chegamos a ser muito ricos, pois meu pai, homem avesso a negócios, deixava escapar os melhores que lhe apareciam. 

Fora educado na Europa e tivera hábitos de nômade. Esquadrinhara parte do mundo e amava os objetos velhos e artísticos, as coisas frágeis e as pessoas débeis, tudo que dava idéia ou de convalescença ou de fim próximo. Daí talvez a sua paixão por mamãe. Com a sua magreza pálida de macerada, ela parecia uma eterna convalescente. Papai beijava as suas mãos finas devagar, muito de leve, com medo talvez que aquelas mãos se partissem. E ficavam horas perdidas em longo silêncio de namorados que se compreendem e se bastam. Não me recordo de tê-los ouvido fazer projetos.

Nós, eu e minha irmã, éramos como que bonecos para papai e mamãe.

Quando meu tio chegou mudou tudo. Ele não fora à Europa e se parecia muito com vovó, que fizera dos dezoito anos de vida em comum com meu avô uma dessas tantas tragédias anônimas e horríveis que nascem do casamento da estupidez com a sensibilidade. Dava nos filhos dos operários, o que não admirava, porque, como murmuravam pela cidade, ele espancava a esposa.

Pobre tia Santa! Tão boa, amava tanto as crianças e rezava tanto que tinha calos nos dedos, provocados pelas contas do rosário. Morreu, e a doença foi o marido. Meu tio deflorara uma operária e fora viver com ela publicamente. Santa não resistiu ao desgosto e morreu com o rosário entre as mãos, pedindo a papai que não abandonasse o miserável.

A fábrica prosperou muito. Nunca consegui compreender por que o salário dos operários diminuiu. Papai, fraco por natureza, não tinha coragem de afastar titio da fábrica e um dia, quando tocava ao piano um dos seu trechos prediletos, teve uma síncope e morreu.

[...]

Quando meu pai morreu e após meu tio declarar a nossa miséria, fomos morar numa casinhola no começo de uma ladeira. Eu fiquei muito mais perto do proletariado da "Cu com Bunda" do que da aristocracia da decadente São Cristóvão.

Acostumei-me a jogar futebol com os filhos dos operários. A bola, pobre bola rudimentar, fazia-se de bexiga de boi cheia de ar. Tornei-me camarada de um garoto Sinval, rebento único de uma operária, cujo marido morrera em São Paulo, metido numas encrencas com a polícia, não sei bem por quê. Sei que os operários falava dele como de um mártir. E Sinval desancava os patrões o que mais que podia. Franzino, os ossos quase a aparecer, possuía no entanto uma voz firme e um olhar agressivo. Chefiava a gente nos furtos às mangas e cajus dos sítios vizinhos. E toda vez que meu tio passava, cuspia de lado. Dizia que apenas completasse dezesseis anos embarcaria para São Paulo, para lutar como seu pai. Só muito depois é que eu vim compreender o que significava tudo isso.

Freqüentamos, eu e Elza, a escola. Mamãe fazia rendas e seus pais ajudavam o nosso sustento. Quando fiz quinze anos fui trabalhar na fábrica. Eu era então um rapazola forte, troncudo. O menino anêmico que eu fora se transformara em um adolescente de músculos rijos treinados em brigas de moleques.

Aparentava muito mais idade do que tinha realmente. Vivera sempre entre molecotes pobres da cidade, pobre que eu era como eles. Agora ia ser igual a eles completamente, operário da fábrica. Sinval não me diria mais com seu sorriso mofador:

— Menino rico...

Cinco anos aturei na fábrica a brutalidade do meu tio. Sinval, aos dezessete, vendera o que possuía em roupas e móveis e tocara para as fábricas ou para as fazendas de São Paulo. A primeira e última notícia que tivemos dele foi dois anos depois. Estava metido numa greve e esperava ser preso a qualquer momento. Depois nem uma carta, nem um bilhete, nada. Os operários afirmavam:

— Seguiu o destino do pai — e cerravam os punhos enraivecidos. Mas a fábrica apitava e eles se curvavam, magros e silenciosos.

Minhas mãos estavam então calejadas e meus ombros largos. Esquecera muito do pouco que aprendera na escola, mas em compensação sentia um certo orgulho da minha situação de operário. Não trocaria meu trabalho na fiação pelo lugar de patrão. Meu tio, o dono, estava bem mais velho e mais vermelho e mais rico. A barriga era o índice da sua prosperidade. À proporção que meu tio enriquecia ela se avolumava. Estava enorme, indecente, monstruosa. Poucas fortunas em Sergipe igualavam nesse tempo à sua. Dava esmolas unicamente ao convento (onde papava jantares) e ao orfanato. A este ele dava esmolas e órfãs. Não se podia contar pelos dedos, nem juntando os dos pés, o número de operárias desencaminhadas por meu tio.

Paixão que tive aos catorze anos por uma rameira gasta e sifilítica, com a qual iniciei a minha vida sexual. Amor, aos dezoito, platônico, por uma loura pequena do orfanato que foi ser freira, e enfim aos vinte, o pensamento de me amigar com a Margarida, operária como eu. Isso deu maus resultados. Meu tio andava também de olho na Margarida, que ostentava uns seios altos e alvos, junto a um rosto de criança travessa. Margarida um dia me contou que o patrão andava a apalpá-la. E ria, cínica. Eu acho que foi o seu riso que me fez ir às fuças de meu tio. Estraguei-lhe a cara hipócrita. Fui despedido.

São Paulo parecia à minha mãe e a Elza o fim do mundo. Por nada deixariam que eu fosse para lá. Eu comecei a falar em Ilhéus, terra do cacau e do dinheiro, para onde iam levas e levas de emigrantes. E como Ilhéus ficava apenas a dois dias de navio de Aracaju, elas consentiram que eu me jogasse, numa manhã maravilhosa de luz, na terceira classe do "Murtinho", rumo à terra do cacau, eldorado em que os operários falavam como da terra de Canaã.

Mamãe chorava, Elza chorava, quando me abraçaram na tarde em que segui para Aracaju — tomar o vapor. Eu olhei a velha cidade de São Cristóvão, o coração cheio de saudade. Tinha certeza de que não voltaria mais à minha terra.
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A Execução de Tiradentes (João Ribeiro)

A execução de Tiradentes(João Ribeiro)

Extraído de Historia do Brasil, 1901João Ribeiro

Nota do bloguista : foi feita atualização ortográfica do texto.

No dia 19 de abril entrava na cadeia publica do Rio de Janeiro, rodeado de outros ministros da justiça, o desembargador Francisco Alves da Rocha para ler a sentença aos réus que desde a noite da véspera haviam sido transferidos de vários segredos (prisões) da cidade para a sala chamada do Oratório. Eram onze os criminosos que ali esperavam algemados e cercados de força embalada, a ultima palavra de seus destinos.
A leitura da sentença erudita e cheia de citações durou duas longas horas; ao cabo dela eram todos os infames condenados á forca e a alguns cabia ainda mais o horror de insepultos e esquartejados servirem os seus membros, espetados em postes, de padrão da execrável perfídia.
Quando o desembargador se retirou, diz uma testemunha do acontecimento, viu-se representar a cena mais trágica que se podia imaginar. Mutuamente pediram perdão e o deram ; porém cada um fazia imputar a sua infelicidade ao excessivo depoimento do outro. Como tinham estado três anos incomunicáveis, era neles mais violento o desejo de falar que a paixão que a tal sentença cavaria nos cansados corações. Nesta liberdade de falarem e de se acusarem mutuamente estiveram quatro horas; mas quando se lhes puseram os grilhões e manietados (com as mãos presas) viram-se obrigados a deitar-se, por menos incomoda posição, abateram-se-lhes os espíritos e entraram então a meditar sobre o abismo da sua sorte.
Dentro em pouco, porém, um raio de esperança iluminou-lhes a torva existência. O mesmo ministro que lera a rude sentença veio horas depois anunciar a clemência da rainha que aos conjurados, exceto Tiradentes, poupava o suplício da morte. Então foram grandes os extremos da alegria e com aquela inesperada piedade sentiram-se rejuvenescer. Tiradentes também, conforme o seu coração bem formado e leal, participou d'esses transportes e dizia que só ele em verdade devia ser a vítima da lei e que morria jubiloso por não levar após si tantos infelizes que desencaminhara.
Tiradentes era um espirito grandemente forte e na religião achou mais largo e substancioso conforto do que os outros companheiros de espirito leviano ou inconsiderado.
Na manhã de 21 de Abril entrou na sua cela o algoz para vestir-lhe a alva e ao despir-se dizia o mártir que o seu «Redentor morrera por ele também nu».A cidade estava aparelhada como para uma grande festa em honra a divindade do governo supremo. Aos sons marciais das fanfarras saíram de todos os quartéis os regimentos da guarnição, luzidios, com os uniformes maiores: seis regimentos e duas companhias de cavalaria que em tropel corriam a cidade, guardada agora momentaneamente pelos auxiliares.
No campo da Lampadosa erguia-se o lúgubre patíbulo, alto, sobre vinte degraus, destinado ao memorável exemplo. Na frente da cadeia pública organizou-se a procissão em ato declarado fúnebre, com a Irmandade da Misericórdia e a sua colegiada, e o esquadrão de cavaleiros da guarda do Vice-Rei. Saiu o reu que foi posto entre os religiosos que iam para confortá-lo e o clero e as irmandades, guardados pela cavalaria.
Tiradentes tinha «as faces abrasadas», caminhava apressado e intrépido e monologava com o crucifixo que trazia á mão e a altura dos olhos. Nunca se vira tanta constância e tamanha consolação! Ao préstito juntou-se a turba dos curiosos, e avolumando a multidão era mister que de vez em quando dois cavaleiros a destroçassem.
Pelas 11 horas do dia, que fora de sol descoberto e ardente, entrou na larga praça por um dos ângulos, que faziam os regimentos postados em triangulo, o réu com todo o
acompanhamento. Subiu «ligeiramente» os degraus, sem desviar os olhos do santo Crucifixo que trazia e serenamente pediu ao carrasco que não demorasse, e abreviasse o suplício.
O guardião do convento de Santo António, imprudentemente, por mal entendida caridade ou por não saber conter talvez o seu zelo demasiado, tomou a palavra admoestando a curiosidade do povo sem todavia esquecer o elogio da clemência real.
Depois do credo, a um frêmito de angustia da multidão, viu-se cair suspenso das traves o cadáver do martir. Foi profunda a impressão no povo, que apertado e numerosíssimo em todo o campo, abalara para ver o abominável espetáculo. As janelas apinhavam-se de gente e nas ruas e praças era impossível o movimento. As pessoas mais delicadas, com tudo, haviam desde a véspera, abandonado a cidade para não testemunharem a execução.
Após o suplicio, um dos religiosos falou tomando o tema do Eclesiastes : In cogitatione tua regi ne detrahas. . . quia aves coeli portabimt voceni tuani. Não atraiçoes a teu rei nem por pensamentos... as mesmas aves levar- te-iam o sentido deles.
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Um general que não chegou a soldado (Humberto Campos)

Extraido de “Memórias”, 1935
Humberto de Campos

Certa vez uma senhora que alimentava paixão pela farda, reminiscência de um cadete do Ceará que lhe ficara no pensamento, abriu diante dos meus olhos espantados o futuro que me aguardava, e que se tornaria realidade se eu seguisse a carreira militar.

Com uma vivacidade atordoante, descreveu-me ela o meu destino vitorioso e seguro, a minha ascensão através dos postos, com o braço enrolado em galões de ouro e o quépi enfeitado de folhas de loureiro, na indumentária oficial dos heróis. Viu-me alferes, aos dezenove anos. tenente, aos vinte e dois. e capitão, e major, e tenente-coronel, e coronel, e, finalmente, general.

— General, como Artur Oscar! — lembrou-me, com o pensamento ainda na campanha de Canudos.

Foi isso por ocasião de uma visita, em companhia de minha mãe. Era à noite. De regresso, arranjei, em caminho, com um antigo alferes, aluno desligado da Escola Militar do Ceará, uma álgebra. E, chegando em casa, comecei a estudar. A lousa pousada na mesa, a cabeça apoiada na mão esquerda, buscava, com simples auxílio do raciocínio, interpretar as regras formuladas literariamente no livro. E já me imaginava no meu uniforme vistoso, marchando à frente das minhas tropas, quando minha mãe, vendo que se aproximava a madrugada, saiu do seu quarto mansamente. À claridade lúgubre do lampião de querosene, eu meditava, cabeceando de sono, diante do método de Trajano. Minha mãe aproximou-se docemente, e pôs a mão, meiga, em minha testa.
— Em que pensas, meu filho?
— Na Escola Militar, mamãe... No princípio do ano que vem vou a Teresina tirar os preparatórios. Depois, sigo para o Rio de Janeiro, e me matriculo na Escola Militar.

Minha mãe sorriu com amargura. Beijou-me a cabeça:
— Com que dinheiro, meu filho?
Fechei o livro. E o futuro general brasileiro viu-se, de repente, degradado, e reduzido, de novo, à sua condição real, e irremediável, de humilde, pequeno e obscuro fabricante de meias na cidade piauiense de Parnaíba...

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Trabalho para camumbembes (J. Lins do Rego)

 

Extraido de Fogo Morto
Jose Lins do Rego

Camumbembe : homem de baixa condição, homem vadio

O bater do martelo do mestre José Amaro cobria os rumores do dia que cantava nos passarinhos, que bulia nas árvores, açoitadas pelo vento. Uma vaca mugia por longe. O martelo do mestre era forte, mais alto que tudo. O pintor Laurentino foi saindo. E o mestre, de cabeça baixa, ficara no ofício. Ouvia o gemer da filha. Batia com mais força na sola.

Aquele Laurentino sairia falando da casa dele. Tinha aquela filha triste, aquela Sinhá de língua solta. Ele queria mandar em tudo como mandava no couro que trabalhava, queria bater em tudo como batia naquela sola. A filha continuava chorando como se fosse uma menina. O que era que tinha aquela moça de trinta anos? Por que chorava, sem que lhe batessem? Bem que podia ter tido um filho, um rapaz como aquele Alípio, que fosse um homem macho, de sangue quente, de força no braço. Um filho do mestre José Amaro que não lhe desse o desgosto daquela filha. Por que chorava daquele jeito? Sempre chorava assim sem que lhe batessem. Bastava uma palavra, bastava um carão para que aquela menina ficasse assim.

Um bode parou bem junto do mestre. O animal era manso. O mestre levantou se, sacudiu milho no chão para a cria comer. Depois voltou para o seu tamborete e começou o serviço outra vez. Pela estrada gemia um carro de boi, carregado de lã. O carreiro parou para conversar com o mestre. Estava precisando de correame para os bois. O coronel mandara encomendar no Pilar. Ele gostava mais do trabalho do mestre Amaro.

O mestre olhou para o homem. E ele lhe falou, com voz mansa, como se não estivesse com a alma pesada de mágoa.

- É encomenda do Santa Rosa? Pois, meu negro, para aquela gente não faço ― nada. Todo mundo sabe que não corto uma tira para o coronel José Paulino. Você me desculpe. É juramento que fiz.

― Me desculpe, seu mestre – respondeu o carreiro, meio perturbado. – O homem é bom. Não sabia da diferença de vosmecê com ele.

― Pois fique sabendo. Se fosse para você, dava de graça. Para ele nem a peso de libra. É o que digo a todo mundo. Não agüento grito. Mestre José Amaro é pobre, é atrasado, é um lambe-sola, mas grito não leva.

O carreiro saiu. O carro cantava nos coções de aroeira, com o peso das sacas. Foi de estrada afora. O mestre José Amaro sacudiu o ferro na sola úmida. Mais uma vez as rolinhas voaram com medo, mais uma vez o silencio da terra se perturbava com o seu martelo enraivecido. Voltava outra vez a sua magoa latente: o filho que lhe não viera, a filha que era uma manteiga derretida. Sinhá, sua mulher, era a culpada de tudo. O sol estava mais para o poente. Agora soprava uma brisa que agitava a pitombeira e os galhos de pinhão-roxo, que mexia nos bogaris floridos. Um cheiro ativo de arruda recendia no ar. O mestre cortava material para os arreios do tengerino do Gurinhém. Estava trabalhando para camumbembes. Era o que mais lhe doía. O pai fizera sela para o Imperador montar. E ele aí, naquela beira de estrada, fazendo rédea para um sujeito desconhecido.

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O Juiz de Paz na Roça (Martins Pena)

 

N. do blogger : Publicada em 1838, a peça teatral O Juiz de Paz na Roça era uma comédia, explorando os costumes das classes sociais humildes, retratando situações jocosas, hilárias.

Cena XI

JUIZ - Escrivão, leia outro requerimento.

ESCRIVÃO - (lendo) "O baixo-assinado vem dar os parabéns a V.S.a Por ter entrado com saúde no ano financeiro. Eu, Ilmo. Sr. Juiz de paz, sou senhor de um sítio que está na beira do rio, aonde dá muito boas bananas e laranjas e cimo vem de encaixa, peço a V.S.a o favor de aceitar um cestinho das mesmas que eu mandarei hoje à tarde. Mas, como ia dizendo, o dito sítio foi comprado com o dinheiro que minha mulher ganhou nas costuras e outras cousas mais; e, vai senão quando, um meu vizinho, homem de raça de Judas, diz que metade do sítio é dêle. E então, que lhe parece, Sr. Juiz, não é desafôro? Mas, como ia dizendo, peço a V. S.a. para vir assistir à marcação do sítio. Manuel André? E.R.M. (Espera Receber Mercê)”

JUIZ - Não posso deferir por estar muito atravancado com um roçado; portanto, requeira ao suplente, que é o meu compadre Pantaleão.

MANUEL ANDRÉ - Mas, Sr. Juiz, êle também está ocupado com uma plantação.

JUIZ - Você replica? Olhe que o mando para a cadeia.

MANUEL ANDRÉ - Vossa senhoria não pode prender-me à toa; a Constituição não manda;

JUIZ - A constituição!... Está bem!... Eu, o Juiz de paz, hei por bem derrogar a Constituição! Sr. Escrivão, tome têrmo que a Constituição está derrogada, e mande-me prender êste homem;

MANUEL ANDRÉ - Isto é uma injustiça!

JUIZ - Ainda fala? Suspendo-lhe as garantias...

MANUEL ANDRÉ - é desafôro...

JUIZ - (levantando-se) Brejeiro!...(MANUEL ANDRÉ CORRE; O JUIZ VAI ATRÁS.) Pega.. Pega... Lá se foi... Que o leve a breca. (ASSENTA-SE) Vamos às outras partes.

ESCRIVÃO - ( lendo) Diz João de Sampaio que, sendo êle "senhor absoluto de um leitão que teve a porca mais velha da casa, aconteceu que o dito acima referido leitão furasse a cêrca do Sr. Tomás pela parte de trás, e com sem-ceremônia que tem todo o porco, fossasse a horta do mesmo senhor. Vou a respeito de dizer, Sr. Juiz, que o leitão, carece agora advertir, não tem culpa, porque nunca vi um porco pensar como o cão, que é outra qualidade de alimária (animal) e que pensa às vezes como um homem. Para V. S.a não pensar que minto, lhe conto uma história: aminha cadela Tróia, aquela mesma que escapou de morder a V. S.a naquela noite, depois que lhe dei uma tunda (surra) nunca mais comeu na cuia com os pequenos. Mas vou a respeito de dizer que o Sr. Tomás não tem razão em querer ficar com o leitão só porque comeu três ou quatro cabeças de nabo. Assim, peço a V. S.a que mande entregar-me o leitão. E.R.M."

JUIZ - É verdade, Sr. Tomás, o que o Sr. Sampaio diz?

TOMÁS - É verdade que o leitão era dêle, porém agora é meu.

SAMPAIO - Mas se era meu, e o senhor nem mo comprou, nem eu lho dei, como pode ser seu?

TOMÁS - É meu, tenho dito.

SAMPAIO - Pois não é, não senhor. (AGARAM AMBOS NO LEITÃO E PUXAM, CADA UM PARA SUA BANDA. )

JUIZ - (levantando-se) Larguem o pobre animal, não o matem!

TOMÁS - Deixe-me, senhor!

JUIZ - Sr. Escrivão, chame o meirinho (oficial de justiça). (OS DOUS APARTAM-SE) Espere, Sr. Escrivão, não é preciso. (ASSENTA-SE) Meus senhores, só vejo um modo de conciliar esta contenda, que é darem os senhores êste leitão de presente a alguma pessoa. Não digo com isso que mo dêem.

TOMÁS - Lembra Vossa Senhoria bem. Peço licença a Vossa Senhoria para lhe oferecer.

JUIZ - Muito obrigado. É o senhor um homem de bem, que não gosta de demandas. E que diz o Sr. Sampaio?

SAMPAIO - Vou a respeito de dizer que se Vossa Senhoria aceita, fico contente.

JUIZ - Muito obrigado, muito obrigado! Faça o favor de deixar ver. Ó homem, está gordo, tem toucinho de quatro dedos! Com efeito! Ora, Sr. Tomás, eu que gosto tanto de porco com ervilha!

TOMÁS - Se Vossa quer, posso mandar algumas.

JUIZ - Faz-me muito favor. Tome o leitão e bote no chiqueiro quando passar. Sabe aonde é?

TOMÁS - (TOMANDO O LEITÃO) Sim senhor.

JUIZ - Podem se retirar, estão CONCILIADOS.

SAMPAIO - Tenho ainda um requerimento que fazer.

JUIZ - Então, qual é?

SAMPAIO - Desejava que Vossa Senhoria mandasse citar a Assembléia Provincial.

JUIZ - Ó homem! Citar a assembléia Provincial? Para quê?

SAMPIO - Pra mandar fazer cercado de espinhos em tôdas as hortas.

JUIZ - Isto é impossível! A Assembléia Provincial (Antigas assembleias legislativas) não pode ocupar-se com estas insignificâncias.

TOMÁS - Insignificâncias, bem! Mas os votos que Vossa Senhoria pediu-me para aquêles sujeitos não era Insignificância. Então me prometeu mundos e fundos.

JUIZ - Está bem, veremos o que poderei fazer. Queiram-se retirar. Estão conciliados; tenho mais que fazer. (SAEM OS DOIS.) Sr. Escrivão, faça o favor de... (LEVANTA-SE APRESSADO E, CHEGANDO À PORTA, GRITA PARA FORA: ) Ó Sr. Tomás! Não se esqueça de deixar o leitão no chiqueiro!

TOMÁS - (AO LONGE) Sim senhor.

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Angela (Camilo Castelo Branco)


Camilo Castelo Branco
Extraído de “Doze casamentos felizes”

Entraram na sala, onde D. Tomásia de Noronha, refestelada numa otomana (tipo de sofá), cruzando os braços sobre os empinados seios, bamboava uma perna sobre a outra.
- Ela aqui está - disse Maria-, Vossa Excelência pergunte-lhe o que quiser, porque eu não tomei bem sentido no que me disse.
- Disse-lhe - interrompeu com veemência D. Tomásia - que sua filha, esquecida da humildade e modéstia com que devia receber e agradecer a esmola da consideração que lhe demos, ousou aceitar a corte do primo Roboredo.
Ângela levantou os olhos e fitou-os embaciados de lágrimas nos olhos interrogadores de sua mãe.
- Que respondes, filha?
- Que hei-de eu responder, minha mãe?! A senhora D. Tomásia está enganada – disse Ângela com brandura.
- Estou enganada!? Enganada está você! Cuidou que vinha lograr-me lá do mato?! Talvez não saiba o que é aceitar a corte?!
- Não sei, minha senhora.
- Não sabe!? Olha a inocência em pessoa! Que lhe tem dito meu primo?
- O que Vossa Excelência e mais as meninas têm ouvido.
- E não lhe escreveu?
- Escreveu, sim, minha senhora.
- Vê, Srª Maria! -exclamou a fidalga, erguendo-se de salto. - Vê como ela confessa? Quer ainda a cousa mais clara?
- Pois esse senhor escreveu-te, Ângela!? - disse Maria, pálida e convulsa.
- Escreveu, sim, minha mãe.
- O mariola! O patife! O sedutor! - bradou D. Tomásia gesticulando furiosa. - Que lhe diz ele na carta?
- Não sei, minha senhora. A carta, que me deram há meia hora, não a abri ainda. Ela aqui está: pode Vossa Excelência lê-la. A minha intenção era mandar-lha fechada logo que tivesse por quem; mas, se a senhora quer ler, leia.
    Ficou enleada a nobre dama de Guimarães. A brandura de Ângela, oferecendolhe a carta, era já como um castigo. Mais indignada contra o primo que contra a moça, tomou a carta com bom modo e disse:
- Eu responderei ao tratante: a menina não tem culpa, que é inocente.

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O Bom-Criolo (Adolfo Caminha)

O bom criolo - Adolfo Caminha

Extraído do romance “O Bom Crioulo”, 1895
Adolfo Caminha
 
Nota do blogger : O romance “O Bom-Crioulo” foi lançado em 1895. O personagem central, um negro forte e homossexual, iniciou um romance com Aleixo, grumete em um navio da Marinha, onde ambos cumpriam o serviço militar. Nesta passagem, Bom-Crioulo analisa a sua condição sexual. O romance foi o primeiro que teve a ousadia de tratar do assunto com naturalidade e tolerância. 

Entretanto, Bom-Crioulo começava a sentir uns longes de tristeza n’alma, cousa que raríssimas vezes lhe acontecia. Lembrava-se do mar alto, da primeira vez que vira o Aleixo, da vida nova em que ia entrar, preocupando-o sobre a amizade do grumete, o futuro dessa afeição nascida em viagem e ameaçada agora pelas conveniências do serviço militar. Em menos de vinte e quatro horas Aleixo podia ser transferido para outro navio — ele mesmo, Bom-Crioulo, quem sabe? talvez não continuasse na corveta...
Instintivamente seu olhar procurava o pequeno, acendia-se num desejo sôfrego de vê-lo sempre, sempre, ali perto, vivendo a mesma vida de obediência e de trabalho, crescendo a seu lado como um irmão querido e inseparável.
Por outro lado estava tranqüilo porque a maior prova de amizade Aleixo tinha lhe dado a um simples aceno, a um simples olhar. Onde quer que estivessem haviam de se lembrar daquela noite fria dormida sob o mesmo lençol na proa da corveta, abraçados, como um casal de noivos em plena luxúria da primeira coabitação... Ao pensar nisso Bom-Crioulo sentia uma febre extraordinária de erotismo, um delírio invencível de gozo pederasta...
Agora compreendia que só no homem, no próprio homem, ele podia encontrar aquilo que debalde procurara nas mulheres. Nunca se apercebera de semelhante anomalia, nunca em sua vida tivera a lembrança de perscrutar suas tendências em matéria de sexualidade. As mulheres o desarmavam para os combates do amor, é certo, mas também não concebia, por forma alguma, esse comércio grosseiro entre indivíduos do mesmo sexo; entretanto, quem diria!, o fato passava-se agora consigo próprio, sem premeditação, inesperadamente. E o mais interessante é que “aquilo” ameaçava ir longe, para mal de seus pecados... Não havia jeito, senão ter paciência, uma vez que a “natureza” impunha-lhe esse castigo. Afinal de contas era homem, tinha suas necessidades, como qualquer outro: fizera muito em conservar-se virgem té aos trinta anos, passando vergonhas que ninguém acreditava, sendo muitas vezes obrigado a cometer excessos que os médicos proíbem. De qualquer modo estava justificado perante sua consciência, tanto mais quanto havia exemplos ali mesmo a bordo, para não falar em certo oficial de quem se diziam cousas medonhas no tocante à vida particular. Se os brancos faziam, quanto mais os negros! É que nem todos têm força para resistir: a natureza pode mais que a vontade humana...
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