quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

O caboclo, o padre e o estudante (Gustavo Barroso)

 O caboclo, o padre e o estudante - Gustavo Barroso

Texto extraído do livro “Ao Som da Viola”, 1921

N.R. este é um típico "causo", histórias mentirosas, contadas como se fossem verdadeiras e quase sempre em tom de gracejo. A maioria dos causos contavam histórias inacreditáveis, de assombrações, cobras gigantes, encontro com onças, captura de peixes gigantescos, etc. Eram comuns antes do advento dos meios de comunicações de hoje. Eram contadas para crianças (que acreditavam), em mesas de bares, salões de barbeiros, etc. e terminavam sempre em risadas. 

Um estudante e um padre viajavam pelo sertão, tendo como bagageiro um caboclo. 

Deram-lhes numa casa um pequeno queijo de cabra. Não sabendo como dividi-lo, mesmo porque chegaria um pequenino pedaço para cada um, o padre resolveu que todos dormissem e o queijo seria daquele que tivesse, durante a noite, o sonho mais bonito, pensando engabelar todos com os seus recursos oratórios.

Todos aceitaram e foram dormir. À noite, o caboclo acordou, foi ao queijo e comeu-o.

Pela manhã, os três sentaram à mesa para tomar café e cada qual teve de contar o seu sonho. O frade disse ter sonhado com a escada de Jacob e descreveu-a brilhantemente. Por ela, ele subia triunfalmente para o céu. O estudante, então, narrou que sonhara já dentro do céu à espera do padre que subia, O caboclo sorriu e falou:

— Eu sonhei que via seu padre subindo a escada e seu doutor lá dentro do céu, rodeado de amigos. Eu ficava na terra e gritava:
— Seu doutor, seu padre, o queijo! Vosmincês esqueceram o queijo.
Então, vosmincês respondiam de longe, do céu:
— Come o queijo, caboclo! Come o queijo, caboclo! Nós estamos no céu, não queremos queijo.


O sonho foi tão forte que eu pensei que era verdade, levantei-me, enquanto vosmincês dormiam, e comi o queijo...


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Gustavo Barroso, 1958


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